segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Nossas Senhoras (de Alma Welt)



Para a Nossa Senhora, sim, oramos.
Mas não a qualquer uma, escolhamos:
Se for o caso, uma das boas, a dos Aflitos,
Mas nunca só por causa dos mosquitos.

Nossa Senhora do Bom Parto é também boa
Mas não a invoquemos jamais, assim, à toa,
Porque se em vão ela for incomodada,
Sem querer te verás prenha, por um nada...

Nossa Senhora dos Nós, desatadora,
Essa é demais pois é até doutora
Em dificílimos nós de marinheiro,

Pois valeu-me, enredada por inteiro
Ao desfiar-me a teia, num nó louco,
Essa Santa das santinhas do Pau Oco...
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17/10/2022

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Nada com nada (de Alma Welt)

Michelangelo parecia acreditar
Num sistino Deus velho barbado,
E como era o artista tão dotado,
Meu pai deixou sua barba pra apoiar

João Batista deu sua vida de bandeja,
Literalmente pôs nela sua cabeça
Que por aqui continua tão andeja
Bastando só que eu grite: "Apareça!"

O Graal foi deixado aqui na estância
Pelo próprio José de Arimatéia
E era o meu copinho de criança...

Por isso eu declamava meus versinhos
Sem nunca ter medo da plateia:
Santa taça que muda água em vinhos!
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25/01/2021

sábado, 26 de setembro de 2020

La Femme avec humeur (de Alma Welt)

O amor verdadeiro não se explica,
Assim também o riso e a alegria.
Já a perda ou erro em dor implica,
Conquanto boa matéria de Poesia...

Quanto a mim, evito choradeira
Prefiro rir de mim com certo charme
Que palhaça não sou nem de brincadeira,
Faço rir mas só quem pode amar-me.

Disse-me um francês parisiense:
'Une belle femme avec humeur
C'ést parfaitment irresistible''

E eu com aquela cara de nonsense:
Monsieur, ici fait du chaleur
Et tu me parait enfant-terrible...
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26/09/2020

sábado, 5 de setembro de 2020

O ponto de vista do poeta (de Alma Welt)

Falei muito deste mundo em que vivi
Conforme ótica que penso ser sutil,
Que por ser olho de poeta, eu escolhi
Um viés "assim assim", meio em funil.

Vez por outra de um ângulo transversal
Como quem olha assim, meio de lado
Com o rabo do olho e disfarçado,
Para não ser flagrada e me dar mal.

Então levanto a pontinha do real
E perscruto bem por baixo, o dedo pondo,
Disfarçando em seguida, e coisa e tal...

Mas se perguntas o que tenho pra dizer
Depois de tanto apalpar olhar e ver,
"Pero acabo de hacer-lo", te respondo...

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04/09/2020

A griffe do amor (de Alma Welt)

O amor é inefável, na verdade,
Invocá-lo com palavras mal se pode,
Não por suposta e vã dignidade
Mas por não sabermos quando acode.

Porque há imitações meio grosseiras
Que vêm com a bela griffe falseada,
Quando então ficamos pelas beiras
Por comer gato por lebre na parada.

Bah! Eu mesma já vivi esta ilusão
De me julgar completa apaixonada,
De acordar com o coração na mão.

Depois quando o sonho no ar se esvai
Ou quando finalmente a ficha cai,
Acordamos de olho fixo no Nada...

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05/09/2020

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

A Magia de Escrever (de Alma Welt)

Sou antiga, tenho muito que contar
Conquanto mal passei de uns trinta anos,
E minha autoridade é bem narrar
Desvelando minha face e meus arcanos.

Para escrever fico nua, é uma magia
Que descobri quando ainda era guria
E também deixo a porta meio aberta
Pois o medo do flagrante me desperta

E com o meu coração batendo forte
Fico toda arrepiada e o xixi vaza
Qual se fosse questão de vida ou morte.

Gurias, na verdade estou brincando,
Por favor jamais façam isso em casa,
Fiz uma vez e até hoje estou pagando...
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17/08/2020

sábado, 23 de junho de 2018

Casal moderno (de Alma Welt)

Existem tantas maravilhas neste mundo,
Meu bem, vamos sair juntos para jantar
Ou ver um filme, mas não muito profundo,
Ou daqueles só parados, de matar...

Também não muito romântico e meloso,
Ou de super-herói de lantejoulas,
Com as cuecas por cima das ceroulas,
Ou de algum negro mistério tenebroso.

Melhor voltar pra casa e ver Fellini
Que você comprou pirata, o 8 e 1/2
Que não tem erro, você acertou em cheio.

Mas não comece a beber vinho ou martini
Que você não para nunca e fica chato
A perguntar se acontece algo de fato...

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23/06/2018

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Nonsense, o mundo... (de Alma Welt)

Nascemos em dívida com o mundo?
Sim, mas não por pecadilho ou falta
De um remoto antepassado oriundo
De um antigo Jardim pra lá de Malta.

Nem tampouco de seu filho criminoso
Desses que os fatais ciúmes não medem
E pro oriente foi, daquele Éden
Já perdido, tão bom, tão ocioso...

A propósito, me lembrei de um capataz
Que por excesso de salgado
Largou sua mulher, deixou pra trás...

Tudo é nonsense, dizia minha avó
Podando uma roseira com cuidado
Ou fazendo um delicioso pão de Ló...

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04/06/2018

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Alma no Balanço (de Alma Welt)

                                              Alma no balanço- o/s/t/ de Guilherme de Faria, 2018, 100x100cm

Alma no Balanço (de Alma Welt)

Quando da vida só percebo o lado feio,
Tenho vontade de parar e ir embora.
Mas, de repente, percebo um outro veio
Que leva ao ouro ou a uma luz lá fora.

És bipolar, me dizem os "psicanas",
Porque oscilo entre os extremos:
De dinamite escolho as bananas
Ou colho flores no jardim dos demos.

Para qual lado apontar o nosso míssil?
Para quem tem esta dupla perspectiva
Escolher um só lado é mais difícil...

E assim vou balançando em pleno ar
Como a criança no balanço, hiper ativa,
Que não queria mais parar de balançar...

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01/06/2018

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Sabedorias baratas (de Alma Welt)


Um soneto por dia é o remédio
Contra quase todo tipo de mazela
Menos o estupro e o assédio
Que contra isso só acendendo vela.

Nossa vida sempre fez mal à saúde
Mas é vício adquirido ainda no berço.
Uns preferem viver muito e a miúde
Alguns outros simplesmente puxar terço.

Conheci no Himalaia um certo monge
Que havia parado ainda pequeno
Para em volta inspecionar todo o terreno.

Perguntei logo a ele a conclusão,
E ele disse com um gesto de ver longe:
"O mundo é grande... maior é o coração."

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31/05/2018

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Meu Monge (de Alma Welt)

Passou a vida meu monge meditando
E para o próximo não mexeu um dedo,
Que aliás era outro monge só orando,
E mais outro... acordando todos cedo.

Mas estou só os descrevendo, quem sou eu
Para julgar um monge e seu destino?
E esta Alma nunca se comprometeu
A passar na vida alheia o pente fino

Que, aliás, até hoje está de molho...
Me lembro dele minha mãe passando
Pois cheguei da escolinha com piolho.

Mas onde estava eu? Ah! o tal monge...
Então humilde diante dele fui chegando:
"Pra ter convosco, ó Mestre, vim de longe..."

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19/02/2018

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Divagações da Alma (de Alma Welt)

Saber fonte e sentido do universo
Não foram mais pra mim tão necessários
Após ter lido um bom primeiro verso,
Visto um bom quadro, ouvido Stradivarius...

Não me venham dizer: "Isto é pernóstico",
Ou que sou uma verdadeira esnobe
(o que seria um falso diagnóstico),
Que só da alta cultura faço lobby...

Sim, porque me deixa humilde a Arte
E quero ser também sua servidora,
De seus fiéis modestos fazer parte.

Modestos? (eu mesma me pergunto)
Querer criar é veleidade tentadora,
Se Deus me pega até mudo de assunto...

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17/02/2018

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O Circo (de Alma Welt)

Vão-se os dentes, ficam as gengivas,
Vão-se os dedos junto com os anéis;
Das velhas feiras só me tragam os pastéis,
E dos mísseis, atenção para as ogivas.

Quase tudo é absurdo nesta vida
Sob um tal ponto de vista, transversal.
O patético é uma lei universal
E o grotesco, a norma decidida...

A verve do palhaço é o ridículo
E para ainda piorar é vicioso,
E por isso no circo tudo é círculo...

Não me chamem pra nova encarnação:
Tenho medo de encarnar no Bozo,
Ou ser de novo mero alvo da paixão...

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29/11/2017

sábado, 30 de setembro de 2017

Meio... (de Alma Welt)

Vejam, hoje levantei meio contente,
E de repente me senti meio feliz.
Fui tomar um banho meio quente
E saí para um voo de perdiz,

Assim, meio baixo, ainda que seja,
Rasante sobre a relva que se encontra
Meio queimada e não seca sertaneja
Porque por aqui o meio conta.

E assim, meio desperta, meio tonta,
Comecei a me dividir no meio
Coisa que amiúde a alma apronta.

E então, meio frênica, meio esquizo
Precisei por no outro "meio" um guizo,
E ao fazê-lo por amor também amei-o...

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30/09/2017

domingo, 28 de maio de 2017

Depoimento (de Alma Welt)

Não me verão jamais dizendo "tipo"
Ou "vamos combinar" ou "olha, meu",
Nem sequer pensarei em fazer lipo,
Nem nunca afirmarei que "eu sou mais eu"...

Me esfalfar em academia, nem pensar!
Jamais na praia porei um fio dental
Embora tenha um corpo "tri-legal"
Que deixarei somente o povo imaginar.

Jamais corridas de carros barulhentos,
(que rodando prefiro os cataventos),
Também recuso carnaval e futebol...

Se dançarem funk em minha frente,
E não digam que sou "meio" diferente,
Eu vomito e atiro o urinol...

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28/05/2017

domingo, 12 de março de 2017

Na analista (de Alma Welt)

"Me sinto encrencada nesta vida
Pelo simples "estar aí", à revelia,
Jogada no tumulto em meio à via,
Num "dasein" sem sentido, dividida."

Assim descrevia o meu estresse
Para a minha dedicada analista
Que me vendo como esnobe nunca vista,
Disse: "Apaga tudo. Recomece."

"Doutora, eu sofro sem motivo nem porquê
Já que nada me falta e sou feliz,
Pois faço versos perfeitos por um triz..."

E a doutora olhando o pulso suspirou.
Disse: "Seu tempo acabou, como bem vê.
Amanhã recomece onde parou..."

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12/03/2017

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Libertação (de Alma Welt)

Vivemos só dos nossos pensamentos,
Não importa se trabalhes muito ou pouco
Se na vida teus passos são mais lentos
Ou vociferes e te agites feito louco.

Se mau gosto ou tom fútil e comezinho
Dita o timbre e o sabor do linguajar,
Uma só frase banal, torpe e vulgar
Deixa um rastro de vazio em seu caminho.

Assim falava um mestre que adotei
E que estava dissolvido em tantos livros
Que se tornaram minha meta ou minha lei.

Mas depois de tanta regra e contenção
Daquele falso pudor de mortos-vivos,
Soltei um dia meu primeiro palavrão...

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04/02/2017

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O Grande Circo (de Alma Welt)

A nostalgia é a nota dominante
E oscilo entre ela e a saudade
Do meu próprio sonho a todo instante,
Jamais realizado, na verdade...

O mundo não ficou ainda mais belo
E a poesia não chegou ao paraíso.
Cresci e não cresceu o meu juízo,
E passeiam os civis de parabelo... *

Marx estava errado, não funciona,
Pois o homem só cresce na ambição
E o circo penhorou a sua lona.

De circo entendo mais que de finanças
Como Jesus, equilibrista do Sião,*
Que era bom com os pratos das balanças...

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14/12/2016

Notas
*E passeiam os civis de parabelo - alusão à "tradução " humorística do Millôr Fernandes do mote latino "Si vis pacem parabellum". que significa: "Se queres a paz prepara-te para a guerra." Millôr a traduziu jocosamente: "Civis passeiam de parabelo", trocadilho cheio de contemporaneidade... ("Parabelo" é um tipo especial de eficiente pistola alemã, que no sertão nordestino era usada por Lampião, rei do Cangaço)...

*De circo entendo mais que de finanças/ como Jesus...-
Este verso ecoa aqueles de Fernando Pessoa: "... O mais que isso, é Jesus Cristo/ que não entendia nada de finanças/ nem consta que tivesse biblioteca...

domingo, 11 de dezembro de 2016

A Rainha do Soneto (de Alma Welt)

No soneto posso tudo, sou rainha
E pastora esfarrapada num instante,
Perambulo ociosa pela vinha
Procurando entre os peões o meu amante.

Sou louca, aventureira e cortesã
E tenho minha cabeça por um fio.
A pobre Antonieta era minha fã
Antes da dela rolar no meio-fio...

Jezebel era um poço de virtudes,
Cleópatra uma moça casadoira
E com a historia do tapete tu te iludes.

Mas no último verso do terceto
Me defronto com aquela que é a Moira
E boazinha sou, eu que era espeto...

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11/12/2016

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Se (de Alma Welt)

Viver como se o mundo fosse bom
Embora sabendo quanto é ruim
Eis o segredo, timbre, cor e tom
De uma vida fecunda, para mim...

Mas se enganas tua mente e te iludes
Não funciona nem um pouco a equação.
É preciso que por dentro não te mudes,
Nem sejas, falso, um bom camaleão...

Eu gostava dos ingleses de Vitoria
Que eram fleugmáticos perfeitos,
Pelo menos assim consta na História...

Mas se, qual Dorian, vives só para o prazer
E acordas em desconhecidos leitos
De Vênus trate da camisa não esquecer...

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09/12/2016

sábado, 3 de dezembro de 2016

O gato e o guizo (de Alma Welt)

Quisera, no ser sábia, ser constante,
Mas minha sabedoria é intermitente
Como a luz de um vagalume petulante
Entremeada de uma dúvida insistente.

Como posso esclarecer meu semelhante
Se me falta a fé perfeita sem pergunta,
Que faz o santo ou o profeta triunfante,
Precursores do Advento que nos junta?

Estamos todos na Terra em função disso:
A chegada do Reino ou do Juízo
E eu nem acredito em tudo isso...

Eu, ratinha, porei leite em Vosso pires,
Sem que precise por no gato o guizo,  *
Mas, Senhor, dai-me fé em existires!...

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03/12/2016


 Nota
*Sem que precise por no gato o guizo - alusão à fábula A Assembléia dos Ratos, de Esopo.  

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Bem melhor já pensamos (de Alma Welt)

                                            Jose Benlliure Gil - la barca de Caronte 1919               

Bem melhor já pensamos (de Alma Welt)

Bem melhor já pensamos sobre a vida,
E à nossa antiguidade me refiro
Com a nossa existência dividida
Com os deuses de tudo o que admiro.

Nosso espelho eram eles, não no além,
Um espelho de aumento, sublimado
Pois deuses éramos, menores, mas também,
E andávamos de rosto levantado.

A morte, não queríamos, tão sinistra:
Vogar naquele barco ainda pagando
Olhos da cara em ouro, logo à vista...

Mas em vida a existência era mais bela,
Com os heróis entre nós, vivos, lutando,
Ninguém comprado a pão com mortadela...

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01/11/2016

Nota
* Vogar naquele barco ainda pagando
Olhos da cara em ouro, logo à vista. - Alma alude ao Mito do barqueiro Caronte, da Mitologia grega, que levava os mortos para o reino de Hades, no seu barco pelo rio Estige, desde que eles lhe pagassem dois obulos de ouro cada um. Por isso as moedas eram colocados sobre os olhos dos mortos sobre a pira, antes de serem queimados. Alma faz uma metáfora chistosa, com esse verso: "olhos da cara"..."à vista" ...

sábado, 29 de outubro de 2016

O meu amor (de Alma Welt)

O meu amor me pasta como relva
E bebe meus suores de deserto;
Minha carne é seu prado e rala selva
E nossos últimos tigres andam perto.

Às vezes me enternece seu egoismo
E me faz debulhar lágrimas de milho
Como ao reler meu velho catecismo,
Ou então sentir pruridos no gatilho...

Estou a esconder uma arma branca
Debaixo de meu branco travesseiro
Enquanto ele afaga a minha anca...

Penso em fazê-lo assinar um atestado
(mas jamais poria marca no meu gado)
De amor puro, fiel e verdadeiro...

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29/10/2016

O apelo (de Alma Welt)

Meu amor, vamos embora pra bem longe
Não importa se pra beira de um deserto
Onde tu serás meu solitário monge,
E eu, tua santinha, bem mais perto.

Que importa o mundo, ninho de serpentes,
Ou esse saco de gatos conflitantes?
Que podemos contra a caça aos elefantes,
Ou ao Mal e os mortos vivos residentes?

Vem, larga esse teu trabalho insosso
Que só dá dinheiro e nada mais,
E vem comigo beber água de poço!

Assim dizia o coração ao namorado
Enquanto eu quase ria, logo atrás,
E ele abria os braços, desolado...

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29/10/2016

sábado, 8 de outubro de 2016

A mente ociosa (de Alma Welt)

Todo o conhecimento está em nós,
Precisamos aprender a recordá-lo.
Todo rio se encaminha para a foz
E toda ignorância para o ralo...

Assim dizia um guru que imaginei
E com quem andei chupando cana
Do outro lado do vale de Nan Sei
Onde a terra é chata e toda plana...

Há quem de tanta fome entre em coma.
Alguém disse que a beleza desperdiço,
E que devia aproveitá-la e por na zona.

Bah! Minha mente anda ociosa...
O que eu preciso é de catar serviço,
E a Poesia leve um sino de leprosa. *

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08/10/2016

Nota
*...a Poesia leve um sino de leprosa - Na idade Média, os leprosos eram obrigados a carregar uma sineta e ir batendo, para avisar as pessoas para se afastarem quando elas se aproximavam das aldeias. Se não o fizessem era mortas pelos aldeões.

Às margens de La Seine (de Alma Welt)

Cercada de minhas referências
Construí uma muralha de marfim
Contra todas as toscas evidências,
Coisa insustentável, ai de mim!

Minha época era podre, assim pensava
E queria tanto voltar ao dezenove
Onde Fiodor Dostoievski reinava
Junto com Tolstoi, Gogol, Tchecov.

Flaubert, Baudelaire e Verlaine
Este ultimo procurando o seu Rimbaud
Colhiam flores do mal, junto com Taine.

E eu, no chá, degustava a madeleine
De Proust na mesinha de um bistrô
Às margens douradas de la Seine...

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08/10/2016

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Universos (de Alma Welt)

Nosso mundo tem bilhões de universos,
Cada um tem no centro nosso umbigo.
Todos termos nossa prosa e nossos versos,
Isso, sim, é o mistério, meu amigo...

A vida das pessoas é uma saga
Quando vista de perto o suficiente,
Embora raramente ensino traga
Ou que nos ajude a ir pra frente.

Não sei se amo ou não a humanidade
Pois no todo gosto dela bem de longe
E quando estou carente e com saudade.

Mas não me levem nem um pouco a sério:
Jamais seria em mim meu próprio monge,
Meu coração incendiou meu monastério...
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12/08/2016

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Questionando o Bom Deus (de Alma Welt)


Ao meu bom Deus, quando guria perguntei:
Por que a Morte, Senhor, e o sofrimento?
Me refiro ao que por mim mesma não sei,
Mas vejo aí ao meu redor tanto lamento!...

Pensam vocês que Ele me ouviu? Deus nem tchum!
Não me disse A nem b nem Azevedo.
Eu fiquei decepcionada e disse: hummm...
E fiz de satisfeita um arremedo.

Com a mesma pergunta de outro jeito,
De tempos em tempos voltava ao meu bom Deus
Procurando demonstrar maior respeito.

E afinal, conformada: "Ah! Não me ouves!
Se não aceitas protestos como os meus,
É melhor eu voltar às minhas couves"...

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20/07/2016

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Plano para transformar o Mundo (de Alma Welt)

                             O Ministro ( Mefisto) - litografia de Guilherme de Faria

Plano para transformar o Mundo (de Alma Welt)

Bem queria a vida toda transformar
Retirando todo o mal, raiz do mundo
E deixando só o amor, pra começar,
E a morte esquecida lá no fundo...

Que imensa pretensão, bem reconheço,
A de querer melhorar o que Deus fez,
Mesmo sem a rebeldia do começo
Que incluía rancor e insensatez...

Fui visitada por um senhor sinistro
Me propondo sociedade no projeto
Ou então ser uma espécie de ministro.

Então logo percebi a armadilha
De que meu próprio plano era objeto:
A do primeiro anjo e sua quadrilha...

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11/07/2016

domingo, 8 de maio de 2016

Homem rico, sua amante, seu cão (de Alma Welt)

          Homem rico, sua amante seu cão (desenho cubista de Guilherme de Faria, 1975)


Homem rico, sua amante, seu cão (de Alma Welt)

Era uma vez um homem muito rico
Que amava sua amante e seu cachorro,
Como eu, que ao soneto me dedico
Embora ele me venha, assim, de jorro.

Mas onde estava eu? Ah! O ricaço
Que triplo encomendou o seu retrato
A um tal pintor chinfrim meio Picasso,
Já estilhaçado o amor de fato...

E eis que se foram amante e cão
Para os braços de outro magnata
Como os vizinhos sempre são...

Mas ele não ligou, sempre altaneiro:
“Dinheiro (Millor disse esta bravata)
Até o amor compra, e verdadeiro...”

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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Alma Bufa (de Alma Welt)


Não mais consigo me sentir sem escrever
Sonetos sem parar, como uma louca.
Já imagino que querem me abater
A tiros... e não durmo mais de touca.

Mas se penso no mundo sem o verso
Eu o vejo prosaico em demasia
Como se lhe faltasse um universo
Ou a vida fosse falsa e vazia.

Não importa, "cada um desce do bonde
Como lhe apetece", disse o luso
Batendo o pó da roupa como um conde...

Ainda me resta a alternativa
De ajustar o horário do meu fuso
Para estar com vocês ainda mais viva.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O Medo da Alma (de Alma Welt)

                          Foto: a famosa e inesgotável Arca de inéditos da Alma

O Medo da Alma (de Alma Welt)

Devo aqui confessar meu maior medo
Que já me faz acordar sobressaltada,
Que é que tudo seja só engano ledo
E a minha Arca afunde, naufragada.

Qual fantasma não me sou senão sonetos,
Que nesses versos foi que me edifiquei
E só existo em tantas quadras e tercetos
Conquanto muita prosa acrescentei.

Se a arca com os versos-bicharada
Não flutuar no meu próprio dilúvio
Terei eu vivido em vão por quase nada...

E o Guilherme me perdoe, pobre irmão,
Este espectro com seu cabelo ruivo
Que já até de rima pobre lança mão...

domingo, 24 de agosto de 2014

IF (de Alma Welt)


Se do amor não te sobrou nenhuma flor
E seus acordes já nem soam, de vazios;
Se a lembrança não guardou nem o rancor
No teus vagos sonhos falsos, erradios;

Se teu maestro caiu da platibanda
E fincou-se-lhe a batuta no umbigo;
Se o teu fiel cachorro te debanda
Ou passou-se para o lado do inimigo;

Se tua hora da verdade é só mentira
E te descobres nem corda nem caçamba,
A pensar como o mundo roda e gira...

Então, meu amigo, foste humano:
Colecionas fracassos pra caramba,
E já podes ir pra casa a todo pano...

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Divagando (Alma Welt)

Não quero viver mais que Jesus Cristo
Que fez milagres nos últimos três an
os.
Quanto a mim no mesmo tempo escrevi isto:
Três romances, mil sonetos pampianos...

É pouco, talvez, e não milagres,
Pois o Glauco Mattoso escreveu cinco,
Mas só estou falando de milhares
Porque na testa já ostento um vinco.

Que queres tu dizer com isso, ó Alma?
Acaso ousas comparar-te com Jesus?
Báh, não tentes me fazer perder a calma!

Não, amigo, estou somente divagando,
Se bem, é fato, que carrego minha cruz
Que de versos toda feita, vou levando...

domingo, 5 de janeiro de 2014

Sem modelo (de Alma Welt)

A vida não tem fórmula, não adianta
Escolher uma de fôrma pra moldar,
Que o chapéu não servirá e nem a manta
Cobrirá o teu pé frio ao se deitar...

Pouco ocorrerá do programado
E é mais fácil os burros darem n’água
Se pensares num modelo do passado,
E depois não adianta choro e mágoa...

Do vizinho do lado é verde a grama
Mas ele está preste a se matar

Porque seu coração é pura lama.

É melhor te concentrares no teu jogo
Se no tapete um reino vais montar,
Que lá fora queres água, levas fogo...

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Fechando as contas (de Alma Welt)




Fechando as contas (de Alma Welt)

Já estou nas extensivas ou no lucro,
Como se diz no vulgo e claramente,
Mas não me refiro ao povo xucro,
Ao balanço da poesia, simplesmente.

Passei a régua, fechei as minhas contas
E só deixei pra lá alguns trocados:
Um ou outro verso meio às tontas
E outros, afinal, de pés quebrados.

E agora contemplo o meu legado
De uma vida dedicada ao bom soneto,
Que teria aos dois Bardos orgulhado.*

E que o corvo cante e o rato ruja
Mais Petrarca, Dante, e num dueto
O Tom e o Vinícius, de lambuja...
 
 
 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Experimentemos (de Alma Welt)

Tentemos não trocar nada em miúdos
Nem fazer as contas no final;
Não ir à guerra santa ou de Canudos
Para poder ir para casa no Natal...

Experimentemos ir além da Taprobana
Mas só se isso for dentro da alma...
Nem sabemos arrumar a nossa cama
Nem consentir sobre isso, dar a palma.

Experimentemos, pois, dormir um pouco
Sobre os nossos louros e conquistas
E às trombetas fazer ouvido mouco.

E como no final dá tudo errado
Encontremos no erro novas pistas,
Pra saber onde estamos... De quê lado?

sábado, 17 de agosto de 2013

A Mariposa (de Alma Welt)


A gente só consegue ser a gente,
Não tem jeito, a vida é uma só.
Ou então será tudo diferente

Só depois da gente virar pó.

Tenho muita pena de morrer
Coisa que parece bem macabra,
Daquelas que eu não podia ver
Sem murmurar abracadabra.

Tudo o que eu sei de pouco serve
E olhem que eu sei de muita coisa
Inútil cada vez que o sangue ferve.

Só espero que no último segundo
Minha alma se torne mariposa,
Saia do casulo e ganhe o mundo...

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Façamos preces (de Alma Welt)

Façamos uma prece apaixonada
Para São Benevento Marzolla
Padroeiro de toda a manada
E inventor do sapato sem sola.

Também para frei Tertuliano
Falso padre jesuíta e tão fiel
Que confessava por escrito todo ano
Seu pecado em rolo grande de papel.

Mas não esqueçamos São Matuque
Que era mágico amador perfeito
Pois de verdade, sem ilusão nem truque.

No final, grandes louvores à Papisa
Joana, que merece o meu respeito
Pois pariu no meio de uma missa...

sábado, 23 de março de 2013

Os deuses (de Alma Welt)

Foi Deus que criou os outros deuses
E quer que pela arte os honremos.
Por isso existe o Amor e seus adeuses
Além da Natureza e alguns demos.

Sabei que os deuses não estão mortos:
Ainda ontem topei com Dioniso
Que para me levar pra outros portos
Só um vinho do Porto foi preciso.

Quanto à Venus, rezo a ela todo dia
Para me manter assim bonita
Ao menos através da minha poesia.

Bah! E Apolo! Que beleza, que galã!
Gravei sua eólia harpa numa fita
Para ouvir todos os dias de manhã...

 

quarta-feira, 13 de março de 2013

Nossa época (de Alma Welt)



Ninguém está seguro, não há Arcas,
Perdemos de repente a sintonia
Com as Graças e às voltas com as Parcas
Caímos numa parca economia.


A qualquer momento vêm as Fúrias
E podemos perder a estribeira
Pela simples rejeição ou por injúrias,
E podemos fazer uma besteira...

Só nos segura uns ecos do passado
Lá atrás onde ficou a consciência
Ao morrer ou sair fora de mercado.

A mesma inconsciência do papado
Que do “estufa” não tem mínima ciência
Ao soltar fumaça preta no telhado...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A Gabola (de Alma Welt)



Senti sempre muitos olhos sobre mim,
E isso, eu sei, é um privilégio
Embora eu seja muito tímida, isso sim,
Apesar de um decantado porte régio


Que dizem que ostento desde a escola
E que faz com que o gaúcho me saúde
Tirando o barbicacho qual cartola
E fazendo com que seu semblante mude.

Mas atribuo tudo isso à minha arte
Que me dá essa aura de princesa
Que não se vê por aí em toda parte...

Mas agora que eu já tanto me gabei,
Vou me deixar levar na correnteza
Pois nem sei se dei à praia ou me afoguei...

domingo, 10 de fevereiro de 2013

O Alvará (de Alma Welt)


Ultimamente me sinto meio idosa,
Embora ainda longe dos quarenta;
É que a estrada é longa e pedregosa
Pra quem de tão sensível nem se agüenta.

“Ora, Alma”- direis- “de que te queixas?”
“É ainda muito jovem teu encarte,
Viveste tua vida como as gueixas,
Só gozando prazer, beleza e arte.”

“Tua canção é que é muito saudosa,
Mas tu pelo teu dengo és suspeita
E isso se percebe em tua prosa...”

Mas, respondo, solidão maior não há
Que a da pobre poetisa já aceita,
A quem até se renovou o alvará...
s

 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Anti lírico (soneto humorístico de Alma Welt)


                 Sonetos de amor, 1894 -Marie Spartali Stillman (Inglaterra, 1844-1927), Delaware Art Museum, EUA

Anti lírico ( de Alma Welt)

"Meu amor"... faz tempo que não digo
Isso assim, no início de um quarteto,
E parecendo até que mal me ligo
Na essência ou primórdios do soneto...

Se penso nos milhares de poemas
Dirigidos ao amor, me dá vertigens;
Muitos deles aplicáveis como enemas
Ou pros suspiros das derradeiras virgens.

Quisera eu escrever versos de amor
Como os de Petrarca para a Laura
Ou mesmo de Allan Poe para Leonor...

Mas meu lirismo é fim de tanque, só vapor;
Também já não possuo aquela aura
E só pega no tranco o meu motor...

________________________________________
Sobre o quadro:
Marie Euphrosyne Spartali, mais tarde adotando o nome de casada, Stillman (1844 – 1927), foi uma pintora inglesa que adotou o movimento Pré-Rafaelita. Considerada talvez a mulher mais importante desse movimentos Marie Spartali teve uma produção prodigiosa, deixando mais de cem telas produzidas. Dedicou-se a temas típicos do movimento Pré-Rafaelita como cenas de Shakespeare, Petrarca, Dante and Boccaccio, além de paisagens do interior da Itália.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Janeiro (de Alma Welt)

 

Janeiro para muitos é um mês triste
Onde nada acontece ou tudo falha
E rompemos por um simples dedo em riste,
Um chiste ou um “dá cá aquela palha”.


Quanto a mim me sento na varanda
E permaneço quieta o quanto possa
Enquanto a água sobe e o mais desanda,
Para não fazer marola numa poça.

Neste mês se descobriu as leis de Murphy
E não de Newton, Kepler, Lavoisier,
As outras leis em cujas malhas já me vi...

Passo então a Paciência a invocar,
Que da cruel Ananque é o bom bebê,
E na banheira com Arquimedes afundar...

domingo, 11 de novembro de 2012

O mosaico de esquecer (de Alma Welt


Há momentos em que nos despedaçamos
Contra as arestas do nosso próprio ser,
Então a duras penas nos juntamos
Aos cacos num mosaico de esquecer...

Essa imagem interior contém fissuras
Não como as cicatrizes de batalhas
Que travamos com as outras criaturas,
Mas conosco mesmo e nossas falhas.

Mas neste momento me dou conta
De que estou só a falar vago nonsense
E poderão me tomar por uma tonta,

Ou então, o que é muito mais provável,
Que quem ler isto aqui estranhe e pense
Que estou só a turvar água potável...


domingo, 30 de setembro de 2012

Filosofia de vida (Alma Welt)


Como é bela a vida (eu sempre disse)!
Não me canso de a louvar e admirar,
Embora isto pareça bajulice
Para a própria vida me poupar

Porque sabemos que ela é de se vingar
E há quem diga até que nos engana
Se a gente não “desencanar”
Pensando que é uma espécie de gincana.

“Igual à vida nada nunca vi”,
Disse (mais ou menos) um cowboy
Num filme ruim americano... Quanto ri!

Mas suspeito que a Vida fez um pacto
Com a Morte, por isso tanto dói
Seja gravada em long-play ou em compacto...

 

domingo, 9 de setembro de 2012

Soneto de "Alta Ajuda" (de Alma Welt)


Ir de peito aberto qual Raimundo
É perigoso pois o mundo não é bom
É vasto, só que devastado e imundo,
E topas c’uma pedra qual Drummond.

Mas se mais vastos tens alma e coração
Irás malgrado meus bons ou maus conselhos
Aos confins do antigo reino do Butão
Lá mesmo onde nascem os espelhos.

O que não esperavas no pacote
É que passarás pela Pasárgada
De onde o Manuel virou mascote

Pois a rima é a única solução,
Que tudo faz sentido na largada
Mas no final só há mesmo o pó do chão...


domingo, 22 de julho de 2012

De morte, velhice e dinossauros (de Alma Welt)



De morte, velhice e dinossauros (de Alma Welt)

Quase tudo tem razão de ser na vida,
Mesmo o sofrimento e injustiça
Que servem talvez para a subida
E valem bem mais do que uma missa.

Mas a morte? Não estou tão convencida
Do acerto da decisão de Deus...
E pior se a gente fica envelhecida,
Coisa que é um erro sob os céus.

Velhice, decadência e mais doença.
Coisas errôneas, feias, negativas,
Com as quais embasamos nossa crença.

Mas perdoai-me, Senhor, meu desabafo
Por não vos compreender as tentativas
Passando pelos dinos com seu bafo...

A Culpa é do Camões (de Alma Welt)

Os versos têm me vindo em catadupa
E mal posso explicar esse fenômeno
Mas devo sugerir num prolegômeno
Que Camões e o amor levem a culpa.

Alma minha, muito além da Taprobana,
Não a dele mas a minha desde logo
Pra desespero da mãe, a Açoriana
A quem tardiamente o perdão rogo,

Se mesmo versejar é meu destino
Mormente nas fatais quatorze linhas
De manhã, de noite e ao sol a pino

Não me desculparei pela avalanche,
Mesmo se entre ervinhas e no lanche,
Por sonetos que no peito escrito tinhas...
 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A Vampira (de Alma Welt)


Sendo assim tão branquela e sem sardas
Muito embora ruiva e não albina
Quisera eu ter a compleição das pardas
Quando exposta ao sol desta colina

A pedir ao meu querido Santo Antônio
Não como as outras todas um marido,
Mas acima, a camada tal, de ozônio
Mesmo qu’ele  estranhe o meu pedido.

Isto ocorre depois que dei-me conta
De que o povo teme minha alvura
Que toma como verdadeira afronta

E já haja quem me tome por vampira
Pois em muitas longas noites de loucura
Nua saio à lua e o gáltcho pira...

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A Leonardo (de Alma Welt)


Como te tornaste esse mistério
Tu que tanto mais buscaste clarear
Até corpos furtando ao cemitério
P’ra da Vida o segredo elucidar? *

Tu que abominavas o obscuro
E que dos alquimistas te afastavas *
Pois tu bem sabias que o ouro puro
Era com o teu pincel que conquistavas...

O que te envolve, talvez, como sudário, *
É a tua própria tímida atitude
Que te levava a não sair do armário, *

Pois por gato que pediam davas lebre *
E eu própria me pergunto como pude
Não ver que a Gioconda é tão alegre... *
________________________________
Notas
*P’ra da Vida o segredo elucidar? - Leonardo Da vinci pagava um ladrão de túmulo para trazerlhe secretamente , na calada das noites cadáveres para ele dissecar para os seus estudos de anatomia, a fim de descobrir o mistério da Vida

*E que dos alquimistas te afastavas - -Leonardo não acreditava nos alquimistas e sua tentativa de transformar chumbo em ouro, e era um precursor da ciência moderna, baseada em cáculos matemáticos e na observação acurada e não mística da Natureza.

"O que te envolve, talvez, como sudário- alusão mistificação de uns especuladores recentes de atribuir o sudário de Turim a uma fraude genial de Leonardo, que teria conhecimento de processos precursores da química de revelação fotográfica através de fotos feita com a "câmara escura", que era usada para o apuro da perpectiva nos quadros paisagísticos de alguns pintores naquela época.

"Que te levava a não sair do armário- muitos indícios de que Leonardo era homosexual, dado ao seu conhecido dandismo( gostava de se vestir com luxo até para pintar, e e fato de na corte de Ludovico Sforza, O Mouro, duque de Milão, fazia o papel de festeiro, cenógrafo, figurinista das festas e organizador do cardápio e dos enfeites de mesa e ornamentação e apresentação dos alimentos 9Pês um pavão assado , com as penas recolocadas batendo asas e abrindo e fechando a cauda, recheado com um mecanismo de engrenagens de relojoaria. Leonardo disfarçava seu homosexualismo, pois isso era crime na época, e mantinha no seu ateliê aprendizes jovens escolhidos nas ruas. Giovanni Boltraffio foi o mais belo e talentoso deles, mas suicidou-se muito jovem enforcando-se na trave do telhado do sótão do ateliê do seu mestre, por razões de conflito íntimo.

*Pois por gato que pediam davas lebre - Os burgueses qe lhe encomendavam quadros pensavam estar comprando coisas menos preciosas e não esperavam tal apuro de execução. Certamente não esperavam que o retrato do próprio mestre estava camulflado nas feições do retratos que fazia, como agora se prova.

*Não ver que a Gioconda é tão alegre... - este curioso verso alude ao fato de que indícios de a Mona Lisa ser um retrato disfarçado e travestido do próprio Leonado. O nome da Mona Lisa era "Lisa del Giocondo," e também chamada "Gioconda", que em italiano quer dizer "Alegre" (hoje em dia = Gay)...

sábado, 28 de abril de 2012

O Rapto (de Alma Welt)














O Rapto- gravura em metal (ponta-seca) 1968, de Guilherme de Faria



O Rapto (de Alma Welt)
Havia um vizinho estancieiro
Que tinha uma filha no cabresto
Até o dia que o seu gordo caseiro

Viu na prenda algo fora de contexto,

E a sombra da luxúria se mostrou

Muito mais convincente que o arreio
Que a moça carregava e se livrou

Tirando dos dentinhos o seu freio
E no dia do casório dessa prenda
Com escolhido do pai autoritário
A noiva não entregou a encomenda:

Lá se foi grinalda e cauda ao vento
Na garupa de um alazão sem páreo
No lance mais gordo de um momento...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O rei Tzibor (de Alma Welt)














Paisagem de Ciprestes (o Rei Tzibor) - desenho de Guilherme de Faria 1963, coleção Flávio Pacheco, São Paulo

O rei Tzibor (de Alma Welt) 

Eis que vem o rei Tzibor cavalgando
No seu corcel de pau e o escudeiro,
Com seu elmo de ferro desfilando,
Com planos de trair seu povo inteiro...

A fila de ciprestes, seu cenário,
O situa de maneira um tanto vaga
Num mundo de razão meio precário
Com a Morte e Loucura como praga...

E então eu pergunto ao velho artista
O que sabe do rei fraco e grotesco
Em sua visão crua e realista...

E ele me responde que não sabe
Porque um rei só precisa parentesco
Com um parvo que no seu próprio pé babe...
 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Sonetinho para São Francisco (de Alma Welt)


São Francisco dos peixes - óleo s/tela de Guilherme de Faria, 40x30cm

Sonetinho para São Francisco (de Alma Welt)

Entre os santos, além do meu Negrinho,
Aprecio bastante o São Francisco
Que falava com as aves no caminho
Mesmo que no olho entrasse um cisco,

Quando não coisa pior vinha no ar...
Mas o que mais merece estudos
E faz a gente mesmo se ajoelhar:
Peixes lhe escutarem embora mudos!

Mas ele ser poeta explica tudo
Pois um vate está no meio do caminho
Entre a santidade e o tal chifrudo

Que também adota estes coitados
E os faz viver de palmas, vento e vinho,
Para serem afinal pobres diabos...

domingo, 11 de março de 2012

O Jovem Frade (de Alma Welt)


Jovem Frade - óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 1991

O Jovem Frade (de Alma Welt)

Havia um frade jovem na cidade
Que guria me levaram a conhecer
Pois vivia em odor de santidade
E que achavam me podia converter.

Então me recordando do Aliocha
O melhor dos quatro irmãos Karamazov
Encontrei-o com um velho a jogar bocha
Algo que por pouco me comove.

Mas pensando no stáriets Zósima
O velho e sábio santo do romance
Fomos a uma lanchonete próxima.

E logo por amor de um jovem frade
Meu coração quase abriu-se num relance
Para a minha própria santidade...

quinta-feira, 1 de março de 2012

Soneto para São Francisco (de Alma Welt)


Cabeça franciscana- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 1999, 40x30cm

Soneto para São Francisco (de Alma Welt)

Há um santo por quem tenho simpatia
É o tal São Francisco das pombinhas
E de outros pássaros que ele via
Assim como as incríveis andorinhas.

E dizem, era bem chegado em peixes,
Em ficar nu tirando a roupa num zás-trás
Como eu quando temo que me deixes
E provoco que me olhes como o faz...

Mas dizem que era casto, coisa estranha,
Pois assim que fico nua fico louca
A dançar a tarantela como a aranha

Que não consta que o Francisco apreciava
Já que era santo por não dormir de touca
E não deixar que nem a Clara lhe tocava...

sábado, 15 de outubro de 2011

Marguerita La Loca (de Alma Welt)


Mad Mag - Lito de Guilherme de Faria

Marguerita La Loca (de Alma Welt)

Estando eu louca e internada,
Vestindo camisa de onze varas
Numa Clínica daquelas meio caras
De que não quero nova temporada,

Conheci a Marguerita, grande dama,
Vestida de babado e laçarote
Sentada quando fora de sua cama
Sempre acompanhada dum mascote,

Com seu chapéu imenso de outra era
Imóvel em sua cadeira de balanço
Para não despertar sua própria fera...

Mas o bichinho a olhá-la do poleiro
Tinha um certo olhar e um vago ranço
Do qual ainda hoje sinto o cheiro...

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Quase (de Alma Welt)

Alguns de nós ficamos quase ricos,
Alguns, quase felizes, mas nem tanto;
Outros restamos quase invictos,
E houve um que quase virou santo.

De nós, de nosso grupo quase unido,
Houve os que quase foram pro Tibet,
E um de nós, que foi mais atrevido,
Quase foi pra Sibéria andando a pé.

Mas todos, quase todos, nos perdemos
De nossos sonhos perfeitos, de guri,
Que quase alguns de nós ainda temos.

Somente eu, que quase me cumpri,
Estou firme, quase, nesta estância,
Fiel ao quase-quase meu, da Infância...
_______________________________

Agora uma tentativa minha de transliteração para o idioma inglês (tradução livre para preservar rimas) do soneto "Quase" da Alma Welt

Almost (by Alma Welt)

Some of us are almost rich, indeed
Some, almost happy, but aint
Others remain almost undefeated,
And there was one who almost became a saint.

From us, that almost united group could
And there were those who almost went to Tibet,
And one of us, who, daring should,
He almost went to Siberia on foot, I bet

But everyone, almost everyone, got lost
Of our perfect dreams of a boy,
As almost some of us still alive or ghost

Only me, who almost fulfilled myself as some
I am firm, almost, in this ship (ahoy!)
Faithful to the almost-almost of my home.

.
09/01/2007

Or:

Almost (by Alma Welt)

Some of us are almost rich, I know;
Some, almost happy, but not so
Others almost undefeated there remain
And there was one who almost became a saint.

From us, from our almost united gang
There were those who almost went to Tibet,
And one of us, who was more bang bang
He almost went to Siberia on foot, I bet.

But all, almost all, we get lost
Of our perfect dreams of a boy,
That some of us still have or almost

Only me, who almost fulfilled myself, uncost
That I am firm, almost, in this toy
True to almost-almost of mine, and I enjoy...

As Três Graças (de Alma Welt)


As Três Graças - Antonio Canova 1757-1822


As Três Graças (de Alma Welt)

Quando esteve aqui um certo conde
Convidado de meu pai e seu amigo,
Guria, fui brincar de esconde-esconde,
Recurso feiticeiro e muito antigo,

Pois com as irmãs Lucia e Solange
Entre risos, rodopios e pirraças,
E beijos, que só à Sol constrange,
De repente formamos as Três Graças.

Então, o nosso conde embasbacado
Vendo aquela cena antiga e grata
Resolveu não nos deixar sem um noivado.

Mas meu pai, churrasqueando, deu desconto,
E sorrindo respondeu ao aristocrata:
“Perdão, mas nenhuma está no ponto...”


04/04/2004

domingo, 5 de junho de 2011

Alma Rapunzel (de Alma Welt)

Quando criança, tendo lido Rapunzel
Quis deixar meu cabelo longo assim
Para encarnar-me totalmente no papel,
Que me achava numa torre de marfim

Apesar de aí correr pela coxilha,
Desfrutar de meu irmão neste pomar
E tudo o que uma prenda, como filha,
Jamais assim fez antes... nem pensar!

Mas quando minha ruiva cabeleira
Se achava já aqui pela cintura
Minha mãe se irritou sobremaneira

E quando eu lançava um longo cacho
Pra que subisse minha bela criatura,
Deu-se o corte: “Vais sossegar o facho!”

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Macunaíma de saias (de Alma Welt)

Ninguém me diga que nem tudo revelei
E que fiz do meu soneto promoção
De mim, do pouco ou muito que pensei
Ou do meu jeito de tomar o chimarrão,

Quero dizer... do meu modo de vida,
Aliás considerado extravagante
Com esta tendência assumida
Ao nudismo e à poesia divagante.

Já contei até minha internação
Que terminou com fuga pela estrada
E quase estupro por chofer de caminhão.

Bem... sou afinal anti-heroína,
Minha poesia não serviu pra quase nada,
De saias fui talvez... Macunaíma!

(sem data)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Transferências (de Alma Welt)

Viver é certamente bem difícil,
E mais se começamos a pensar
No nexo ou razão de tudo isso,
Que é melhor então deixarmo-nos levar.

Bah! Viver como toda a maioria
Sem sequer pensar na transcendência,
A religião sendo mera alegoria
E a morte uma questão de transferência

Pois só ocorre com o outro, de verdade,
Enquanto a nossa própria é impossível
Pois Deus não nos faria essa maldade...

Embora talvez não haja um Deus
Pois não temos algo assim... plausível
Pra provar àqueles outros, os ateus...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O anti carnívoro (de Alma Welt)

Na vida quase tudo é relativo,
O bem e o mal e a temperança
Um justo tinha horror ao Cristo vivo
Pelo sermão seguido de matança

De peixes que também são seres vivos
E temem a morte como as gentes.
Assim falou Leonardo, não em livros,
Em códices bem pouco complacentes.

Mas as plantas seres também são,
E algumas até bem sensitivas...
Desconfio que têm um coração.

Então é melhor passarmos fome,
Porque por aqui somos visitas,
Em um deplorável come-come.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O dia a dia da Poesia (de Alma Welt)

Que poeta eu seria se tivesse
Que esperar a bendita inspiração,
Torcendo pra que logo ela viesse
Para decolar do rés do chão?

Ou bater na porta da minha Musa
Por colher de açúcar ou por um ovo,
Como a vizinha, a tal, meio confusa
Que é uma expressão do nosso povo?

Jamais cozinho eu meu belo almoço
Com bons ingredientes emprestados,
Nem pra tentar trazer aquele moço

Que mora bem no fim do corredor,
E que nos põem assim alvoroçados
Se cruzamos corações no elevador...

domingo, 9 de janeiro de 2011

A Velha Torre (de Alma Welt)

Ainda construímos nossa torre,
Na babel de nossos sonhos incompletos;
Passamos dos limites como um porre
Acreditando ainda sermos prediletos.

Mais mimados pelo Pai que castigados,
Nós iremos até onde Ele deixar;
Filhos tão turbulentos, desleixados,
Que até emporcalhamos céu e mar.

Naturalmente isso não vai acabar bem,
Temos tudo pra dar c’os burros n’água,
E depois rimar com a velha mágoa...

Esperando a herança e não um pito,
Ostentando humildade quem não tem,
Vestiremos nova pele de cabrito...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Aquém da Musa (Alma Welt)

Muito andei aí pelos galpões
A declamar meus poemas e sonetos
Com sucesso relativo entre os peões
Que entoam os versos dos tercetos

Como um refrão e às gargalhadas,
Batendo esporas, tacão e mesmo palma,
Anuências um tanto exageradas
E galanteios dúbios a esta Alma...

Mas percebo que vêm menos que poesia
Ou seja, alguma coisa meio escusa
Que está um pouco aquém da musa

Pois me tratam mesmo é como a prenda
De gringa rubra fenda quase lenda
Que eles têm na oculta fantasia...

12/09/1999

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Quadrilha (de Alma Welt)

Já estive com Noé naquela Arca,
E fui cabeleireira de Sansão
Depois de ser expulsa com Adão
Por furibundo anjo do Tetrarca.

Dei sopa de lentilhas ao irmão,
Por pura cobiça o fiz de bobo,
E causei no cego pai uma ilusão
Com pele de cordeiro feito lobo.

Depois, muito depois de consumado
Quis beijar a mão do falecido:
“Não me toques!” e saiu meio de lado.

E agora estou no Pampa com os sapos
Depois do coração ter em farrapos
Por amar um carcamano enlouquecido...

(sem data)

__________________________________________________

Notas

Alma, como Anima Mundi, sugere neste curioso soneto, ter sido inúmeros personagens através dos tempos:

*E fui cabeleireira de Sansão - Dalila, obviamente

*Depois de ser expulsa com Adão - Eva, obviamente

*Dei sopa de lentilhas ao irmão - Jacó, que com uma artimanha comprou o direito de primogenitura de seu irmão Esaú com um prato de lentilhas.

*E causei no cego pai uma ilusão
Com pele de cordeiro feito lobo - o mesmo Jacó, grande vigarista, cobriu-se com uma pele de cordeiro para que seu pai cego, Abraão, acariciando-o lhe desse a benção pensando ser o seu filho mais velho e preferido, o peludo Esaú...

*Quis beijar a mão do falecido:
“Não me toques!” e saiu meio de lado - alusão ao episódio do Evangelho, em que Maria Madalena encontra o Jesus ressucitado, quis beijar-lhe a mão e esse se esquiva dizendo o famoso "Noli me tangere"- "Não me toques" (porque ainda não subi ao meu Pai...)

* E agora estou no Pampa com os sapos
Depois do coração ter em farrapos
Por amar um carcamano enlouquecido... - Alma se sente como uma princesa agora só cercada de sapos, e não príncipes, depois de ter sido Anita Garibaldi e ter sido amada pelo grande aventureiro italiano Giuseppe Garibaldi, romance que começou durante a Guerra dos Farrapos...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Diário de Bordo (de Alma Welt)

À doutora Jensen

Por ter sido flagrada em brincadeira
Com meu irmãozinho, e apanhar,
Ficou me faltando a saideira
Que eu iria então na vida procurar...

Não há o que me possa saciar
Quando se trata de amor e de carinhos
Nas zonas que quiseram me castrar
Que não passam de dois pobres buraquinhos.

Até hoje ainda quero me mostrar
Como a guria que levantou a saia
Sob a grande macieira do pomar.

Perdoe-me, Doutora, se discordo,
E contigo a fantasia ora recaia
E lance no diário meu, de bordo.

21/12/2005

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Estranha temporada (de Alma Welt)

Perdida de mim mesma então me vi
E posta em camisa de onze varas,
Sem as varas e amarrada atrás ali,
Por suspeita de umas e outras taras;

Posta em bela suíte acolchoada
Mas sem banheiro e sem a cama,
Tratada com requintes de uma dama
Por mordomos que não faziam nada

A não ser carregar-me por aí
Através de infinitos corredores
De um faustoso castelo dos horrores,

Finalmente liberada após fiança,
Talvez por ser filha do meu Vati
Que me mimou assim desde criança...

(sem data)

domingo, 12 de setembro de 2010

Minha Pavana (de Alma Welt)

Posso bem imaginar minha pavana
Aquela, triste, da defunta que serei,
Envolta em pranto, dor e muita gana
De vingança e juras do meu rei,

Sim, Rodo, meu irmão e soberano
E seu fiel Galdério, bom ministro,
A ostentar agora um ar sinistro
Ao chamar nosso aliado Minuano

Para a batalha final com a potência
Que levou “esta defunta infanta amada” *
Aos páramos além de sua demência

Coroada de flores de bromélias,
Na verdade uma pobre desastrada,
A mais branca e tola das Ofélias...

15/01/2007

Diretrizes e Metas (de Alma Welt)

Sejamos diretos, pragmáticos,
E escrevamos sonetos rigorosos
Que evitem conceitos sistemáticos
E evitem os versos adiposos

De firulas supérfluas redundantes,
Para que não morram nas estantes
Nossos versos plenos de verdades
E livres para todas as idades.

E se acaso injustamente acusados
De parnasianismos deslavados,
Tenhamos livre e leve a consciência,

Pois cumprimos a meta de ousadia
De nossa alma ativa e em vigência
Que exige um bom soneto cada dia...

(sem data)

sábado, 4 de setembro de 2010

O Bardo (de Alma Welt)

Ouçam todos, pois, a voz do Bardo!
Assim anunciavam o poema
Que valia sempre muito a pena
Mesmo que causasse algum retardo

Na nossa tarefa mais urgente
Como correr atrás de uma galinha
Para escaldá-la depois em água quente
Enquanto fofocamos com a vizinha...

Mas um momento pleno de emoção
E sintonia com aquela voz profunda
Renovava o nosso gosto pela ação.

Voltar ao afazer mais comezinho
Como limpar um ranho ou uma bunda,
Era agora mais cheio de carinho...


(sem data)

domingo, 15 de agosto de 2010

Érato e Mercúrio (de Alma Welt)

Para escrever o meu soneto
Não faço algum preparo ou ritual,
Que esses só faço se prometo
Aos deuses um estado mais geral.

De espírito elevado já me vejo
Invocando a grande Musa antiga
Que odeia o atacado e o varejo
E só trata de soneto e de cantiga.

Nunca pois do comércio aquele deus
Que dos bandidos também é padroeiro,
Mercúrio que foi “boy” do próprio Zeus

E hoje chama o ouro no cascalho
Envenena o rio e o ribeiro
E agora é o deus do rebotalho...

(sem data)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O sentido da Vida II (de Alma Welt)

Vivi a vida a pensar a própria vida,
Não que eu seja assim uma filósofa,
Só que escrever versos foi minha lida
E garanto não o fiz no meu sofá

Mas andando por aí junto do povo
E vendo como ele se comporta
Ante o dilema do tal primeiro o ovo
Ou galinha que a nós já não importa...

E ao pular um valo ao colher flores
Na coxilha onde brota a minha casa
Fiz versos com os meus próprios odores

E estou prestes a saber o que é a vida
Sem jamais perguntar se ela extravasa
Para o lado de lá... de tão metida.

(sem data)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Fora de tom (de Alma Welt)

Estar no mundo e rir é o milagre
Que ocorre a quase toda gente.
Mas, pensando bem, estar contente
É suficiente razão que nos consagre

Pois ser infeliz é desperdício
Do dom da vida que a vida nos quis dar
E deveria suspeitar, o estrupício,
De si mesmo antes de se lamentar.

Mas se lamentar também é bom
Se o lamentoso for poeta apaixonado
Que o fará pelo que sofre calado.

Dito isso, agora deixem-me chorar
Por mim e pelos que perderam o tom
Da vida, e não conseguem se afinar...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Paradoxo (de Alma Welt)

Que mais posso escrever? perguntaria,
Se preciso fosse achar assunto...
Mas aquilo que nascer precisaria
Virá à luz sem aquilo que pergunto

Pois tão imperioso é o poema
Que tantas vezes temo o que virá,
E o suspense que antecede o tema
É prazer, sofrimento e... Deus dará.

Aquilo que surgiu é verdadeiro
Pelo fato de estar no mundo agora
Como filho de alguém que foi embora,

E que é melhor nem saber o paradeiro.
Mas qual a fonte mesma deste verso
Que falhou em refletir meu universo?

(sem data)

terça-feira, 4 de maio de 2010

A Moira (de Alma Welt)

Ser prudente, modesta, equilibrada,
São coisas que nunca consegui;
Aceitar a pequenez como jornada
No mundo real em que me vi,

Jamais pude acatar e me rebelo
Somente por ser Alma e ignorar
Tudo o que mesmo não for belo
Ou que em beleza não possa transformar.

Meu consolo é que pouco desta vida
Não se pode em arte e graça revelar
Em sua bela imagem refletida.

Só a Moira me é ainda estranha
Como uma estrangeira em nosso lar
Que há muito se hospedou e não se banha...

(sem data

terça-feira, 27 de abril de 2010

Anti-soneto ( de Alma Welt)

Hoje decidi não escrever.
Sinto muito, não haverá soneto.
Não se trata de inspiração não ter,
Mas me faltou este quarteto.

O segundo me parece duvidoso:
É este que só quer aparecer.
Sem ter realmente o que dizer
Poderá criar um círculo vicioso.

Então me reduzi a um terceto:
O próximo, se este me resvale
E seja só um prólogo ou moteto.

Mas pensando bem, é melhor não:
Esta montanha é apenas o seu vale,
Ou uma torre que é só o rés do chão...

(sem data)

terça-feira, 30 de março de 2010

Amor e Arte (II) (de Alma Welt)

Francamente eu preferia a Morte
Se na vida não mais houvesse Arte.
Sei que é radical e muito forte
Proclamá-lo aqui e em qualquer parte.

Mas Amor é básico e irradiante
E faz rodar a Terra no seu eixo,
O sol e outras estrelas, disse Dante,
(para citar il Vate no seu fecho)...

Se é a Arte que a vida nos sublima
Com as cores mais belas da paleta,
O Amor é quem pinta e ilumina,

Faz obra-prima de simples garatuja,
Cria um Iris em pincelada preta,*
E torna lindo o filho da coruja...

16/08/2005

sábado, 6 de março de 2010

Um Eterno Retorno (de Alma Welt)

Os vikings, germanos e outros mais,
Morrer só desejavam com bravura,
Assim como os antigos samurais,
Pra voltar à mesma senda e vida dura.

Assim também est’Alma louca aqui,
Cedo tomada pela arte da Poesia,
Bem cedo irei morrer em nostalgia
Desta vida que, escrevendo, revivi.

Embora alguns bem cheios de revolta,
Acredito que os poetas são divinos...
Mas Deus com suficiente à sua volta

Relança sobre a terra os mais sofridos
Pela saudade dos ventos e dos sinos.
E bá! Tome mais cantos e alaridos!

(sem data)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O Mesmerista (de Alma Welt)

Meu irmão convidou um jogador,
Seu colega aventureiro e “mesmerista”,
Que dizia anular qualquer pudor
Até de antiga freira ou normalista.

E que usara esse poder para vencer
No pôquer, o que quase lhe custara
A vida e mais um olho de sua cara
Retirado a canivete, sem tremer.

Mas a pedido dele em reservado,
Deixei caolho-rei dos fascinantes
Exercer o seu dom em pleno prado...

E voltei com o olhar esgazeado
Com passos abertos, claudicantes,
E o ar pleno e perdido das amantes...

(sem data)


Nota
Acabo de descobrir na Arca da Alma este curioso soneto, nitidamente humorístico, em que Alma conta um episódio real, que em parte testemunhei. Rodo trouxe, para passar uns dias aqui na estância, um "colega" jogador de pôquer profissional, que realmente tinha um olho de vidro e que contou que tinha usado seu dom de hipnotizar em pleno jogo privado com um milionário, e descoberto, passou por maus bocados, quase foi morto e acabou perdendo um olho como lição, retirado a canivete por um capanga do dito ricaço. Insinuante, deu um jeito de ser desafiado no seu dom mesmérico pela Alma, extremamente curiosa que ela era. Mas eu não soube na época desse resultado perturbador, que se deduz deste soneto... Teria a Alma, hipnotizada, sido estuprada em plena coxilha por esse pilantra? (Lucia Welt)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A risada da caveira (de Alma Welt)

O estranho fato de existir a Morte
Só pode ser de Deus a brincadeira
De mau gosto, feia, um tanto forte.
Senão, vejam a risada da caveira:

Seu riso alvar, sarcástico, grotesco,
E o corpo estilizado de fantoche
Do mais puro estilo picaresco
De escultor chegado no deboche.

Também não dá pra gostar da fedentina
Do banquete dos vermes que outrora
Os poetas chamavam de vermina.

Perdoe-me o fiel que tanto reza,
Que acha tudo belo e tudo preza,
E não vê o absurdo sob a aurora...


27/08/2006

domingo, 17 de janeiro de 2010

De poetas e poesia (de Alma Welt)

Poetas somos poucos, não adianta
Dizerem que é qual serviço público
Ou que poeta almoça mas não janta,
Que hoje o leitor é tão abúlico...

A poesia não morreu, está presente
Nas letras das canções que o povo canta
E deixa n’alma a tal rara semente
Que morre, germina e logo encanta.

A Poesia está em tudo, é parceira
Do homem do povo no seu dia,
Que sem ela ninguém suportaria

Vir ao Hotel Mundo em dura estada
Ou nascer de cruel parto sem parteira,
Se não temos mais Queen Mab, nossa fada...

(sem data)

sábado, 7 de novembro de 2009

O Vício do Soneto (de Alma Welt)

Sim, preciso afinal me confessar:
Estou mesma viciada no soneto,
E como em consultório não me meto,
Esse vício vai por certo me matar.

Pois já ando com lápis e bloquinho,
E até com o toco atrás da orelha,
Como o da padaria, lá, do Minho,
Pro verso que me dará na telha,

Pulando um riacho ou na campina,
A brincar com os infantes no jardim,
Até no leito, que não mais de menina,

Onde em ondas de múltiplos orgasmos
Me pego a ver tercetos dentro em mim,
E sílabas contar por entre espasmos...

(sem data)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A vida (de Alma Welt)

A vida, meu amigo, é tão estranha
Que não fosse o risco de uma rima
Eu diria que é a teia de uma aranha
E no centro está aquela que dizima.

Ou então que a vida é uma aventura
Num trem fantasma de verdade
Em que os companheiros de tortura
Vão sumindo a cada feia novidade.

Ou ainda que a vida é uma trapaça
E que somos nós o trapaceiro
Vendedor de elixires de cachaça

Para nós e até para os amados
A quem amor juramos, verdadeiro,
Quando mal suportamos nossos Fados.

(sem data)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O sentido da Vida (de Alma Welt)

Viver é já por si um bom mistério
Sem resposta no plano da razão
E somente um suposto plano etéreo
Vem ainda alimentar nossa ilusão.

Pois se pensarmos muito no sentido
De estar aqui a comer e ver televisão,
Mesmo sendo um filme divertido,
Ou pior: americano e... de ação,

É pouco, muito pouco e fim de linha
Para uma caminhada tão sofrida,
Já que a humanidade assim caminha.

Mas ser poeta é encontrar o tempo todo
A beleza até na Morte, para a Vida,
A tal da flor a brotar em meio ao lodo...

28/07/2005

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O pacto (de Alma Welt)

A vida, meu amigo, não perdoa
O menor engano, erro ou deslize
E cobrará de modo que te doa
Seja aqui, em Paris ou em Belize.

Não poderás fugir pra Patagônia
Se na hora mesma da conquista
Trocares uma rosa por begônia,
E essa não for a flor bem quista.

E se pela atração de suas peles
Casares com um ser incompatível,
Acordo que nem sabes quando seles

E que o Tempo cobrará, embora lento,
Verás que os orgasmos de um momento
Se tornaram essa tua vida horrível...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O mestre (de Alma Welt)

As coisas não ocorridas
atravancam o caminho
Livre-se do ogro
do malogro
Assim dizia um mestre
que inventei
e que se dedicava a fazer nada
com solene inflexão
nos detalhes
Eu ria e ria
com meu mestre
que era a parte enternecida
do meu sonho
detestava não encontrar
o café pronto
e tinha pouca tolerância
com os tolos

Bah! Como dançávamos e ríamos
nos dias de verão no meu jardim
e nas noites também
antes de saber que ele me amava
e nisso consistia o seu saber,
que no mais era um amável
charlatão

Não precisei mandá-lo embora
o meu mestre
Ele se foi em noite conturbada
em que eu batia forte na janela
e não me atreveria a detê-lo
e menos seguí-lo
na tempestade
pois ele mesmo me ensinara
o comodismo
a não intervir na correnteza
o sábio fluxo das coisas
que simplesmente são.

No fundo
não perdi meu tempo
acalentando meu bizarro mestre
(que todos os mestres bem o são)
já que não podemos mesmo ensinar
e menos aprender
pois não sabemos ainda
o que é a Morte
e o misterioso porquê
disto tudo
enquanto a chuva cai
e a relva brota.


Nota
Acabo de encontrar este estranho poema na Arca da Alma, e que me pareceu humorístico. O humor da Alma tinha um toque verdadeiramente bizarro, mas não podemos chamá-lo de "nonsense", pois ela parecia saber bem o que queria dizer. Suas certezas eram muito fortes, apesar de tudo, de toda a perplexidade ante o mistério fundamental da existência. ( Lucia Welt)