domingo, 11 de novembro de 2012

O mosaico de esquecer (de Alma Welt


Há momentos em que nos despedaçamos
Contra as arestas do nosso próprio ser,
Então a duras penas nos juntamos
Aos cacos num mosaico de esquecer...

Essa imagem interior contém fissuras
Não como as cicatrizes de batalhas
Que travamos com as outras criaturas,
Mas conosco mesmo e nossas falhas.

Mas neste momento me dou conta
De que estou só a falar vago nonsense
E poderão me tomar por uma tonta,

Ou então, o que é muito mais provável,
Que quem ler isto aqui estranhe e pense
Que estou só a turvar água potável...


domingo, 30 de setembro de 2012

Filosofia de vida (Alma Welt)


Como é bela a vida (eu sempre disse)!
Não me canso de a louvar e admirar,
Embora isto pareça bajulice
Para a própria vida me poupar

Porque sabemos que ela é de se vingar
E há quem diga até que nos engana
Se a gente não “desencanar”
Pensando que é uma espécie de gincana.

“Igual à vida nada nunca vi”,
Disse (mais ou menos) um cowboy
Num filme ruim americano... Quanto ri!

Mas suspeito que a Vida fez um pacto
Com a Morte, por isso tanto dói
Seja gravada em long-play ou em compacto...

 

domingo, 9 de setembro de 2012

Soneto de "Alta Ajuda" (de Alma Welt)


Ir de peito aberto qual Raimundo
É perigoso pois o mundo não é bom
É vasto, só que devastado e imundo,
E topas c’uma pedra qual Drummond.

Mas se mais vastos tens alma e coração
Irás malgrado meus bons ou maus conselhos
Aos confins do antigo reino do Butão
Lá mesmo onde nascem os espelhos.

O que não esperavas no pacote
É que passarás pela Pasárgada
De onde o Manuel virou mascote

Pois a rima é a única solução,
Que tudo faz sentido na largada
Mas no final só há mesmo o pó do chão...


domingo, 22 de julho de 2012

De morte, velhice e dinossauros (de Alma Welt)



De morte, velhice e dinossauros (de Alma Welt)

Quase tudo tem razão de ser na vida,
Mesmo o sofrimento e injustiça
Que servem talvez para a subida
E valem bem mais do que uma missa.

Mas a morte? Não estou tão convencida
Do acerto da decisão de Deus...
E pior se a gente fica envelhecida,
Coisa que é um erro sob os céus.

Velhice, decadência e mais doença.
Coisas errôneas, feias, negativas,
Com as quais embasamos nossa crença.

Mas perdoai-me, Senhor, meu desabafo
Por não vos compreender as tentativas
Passando pelos dinos com seu bafo...

A Culpa é do Camões (de Alma Welt)

Os versos têm me vindo em catadupa
E mal posso explicar esse fenômeno
Mas devo sugerir num prolegômeno
Que Camões e o amor levem a culpa.

Alma minha, muito além da Taprobana,
Não a dele mas a minha desde logo
Pra desespero da mãe, a Açoriana
A quem tardiamente o perdão rogo,

Se mesmo versejar é meu destino
Mormente nas fatais quatorze linhas
De manhã, de noite e ao sol a pino

Não me desculparei pela avalanche,
Mesmo se entre ervinhas e no lanche,
Por sonetos que no peito escrito tinhas...
 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A Vampira (de Alma Welt)


Sendo assim tão branquela e sem sardas
Muito embora ruiva e não albina
Quisera eu ter a compleição das pardas
Quando exposta ao sol desta colina

A pedir ao meu querido Santo Antônio
Não como as outras todas um marido,
Mas acima, a camada tal, de ozônio
Mesmo qu’ele  estranhe o meu pedido.

Isto ocorre depois que dei-me conta
De que o povo teme minha alvura
Que toma como verdadeira afronta

E já haja quem me tome por vampira
Pois em muitas longas noites de loucura
Nua saio à lua e o gáltcho pira...

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A Leonardo (de Alma Welt)


Como te tornaste esse mistério
Tu que tanto mais buscaste clarear
Até corpos furtando ao cemitério
P’ra da Vida o segredo elucidar? *

Tu que abominavas o obscuro
E que dos alquimistas te afastavas *
Pois tu bem sabias que o ouro puro
Era com o teu pincel que conquistavas...

O que te envolve, talvez, como sudário, *
É a tua própria tímida atitude
Que te levava a não sair do armário, *

Pois por gato que pediam davas lebre *
E eu própria me pergunto como pude
Não ver que a Gioconda é tão alegre... *
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Notas
*P’ra da Vida o segredo elucidar? - Leonardo Da vinci pagava um ladrão de túmulo para trazerlhe secretamente , na calada das noites cadáveres para ele dissecar para os seus estudos de anatomia, a fim de descobrir o mistério da Vida

*E que dos alquimistas te afastavas - -Leonardo não acreditava nos alquimistas e sua tentativa de transformar chumbo em ouro, e era um precursor da ciência moderna, baseada em cáculos matemáticos e na observação acurada e não mística da Natureza.

"O que te envolve, talvez, como sudário- alusão mistificação de uns especuladores recentes de atribuir o sudário de Turim a uma fraude genial de Leonardo, que teria conhecimento de processos precursores da química de revelação fotográfica através de fotos feita com a "câmara escura", que era usada para o apuro da perpectiva nos quadros paisagísticos de alguns pintores naquela época.

"Que te levava a não sair do armário- muitos indícios de que Leonardo era homosexual, dado ao seu conhecido dandismo( gostava de se vestir com luxo até para pintar, e e fato de na corte de Ludovico Sforza, O Mouro, duque de Milão, fazia o papel de festeiro, cenógrafo, figurinista das festas e organizador do cardápio e dos enfeites de mesa e ornamentação e apresentação dos alimentos 9Pês um pavão assado , com as penas recolocadas batendo asas e abrindo e fechando a cauda, recheado com um mecanismo de engrenagens de relojoaria. Leonardo disfarçava seu homosexualismo, pois isso era crime na época, e mantinha no seu ateliê aprendizes jovens escolhidos nas ruas. Giovanni Boltraffio foi o mais belo e talentoso deles, mas suicidou-se muito jovem enforcando-se na trave do telhado do sótão do ateliê do seu mestre, por razões de conflito íntimo.

*Pois por gato que pediam davas lebre - Os burgueses qe lhe encomendavam quadros pensavam estar comprando coisas menos preciosas e não esperavam tal apuro de execução. Certamente não esperavam que o retrato do próprio mestre estava camulflado nas feições do retratos que fazia, como agora se prova.

*Não ver que a Gioconda é tão alegre... - este curioso verso alude ao fato de que indícios de a Mona Lisa ser um retrato disfarçado e travestido do próprio Leonado. O nome da Mona Lisa era "Lisa del Giocondo," e também chamada "Gioconda", que em italiano quer dizer "Alegre" (hoje em dia = Gay)...

sábado, 28 de abril de 2012

O Rapto (de Alma Welt)














O Rapto- gravura em metal (ponta-seca) 1968, de Guilherme de Faria



O Rapto (de Alma Welt)
Havia um vizinho estancieiro
Que tinha uma filha no cabresto
Até o dia que o seu gordo caseiro

Viu na prenda algo fora de contexto,

E a sombra da luxúria se mostrou

Muito mais convincente que o arreio
Que a moça carregava e se livrou

Tirando dos dentinhos o seu freio
E no dia do casório dessa prenda
Com escolhido do pai autoritário
A noiva não entregou a encomenda:

Lá se foi grinalda e cauda ao vento
Na garupa de um alazão sem páreo
No lance mais gordo de um momento...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O rei Tzibor (de Alma Welt)














Paisagem de Ciprestes (o Rei Tzibor) - desenho de Guilherme de Faria 1963, coleção Flávio Pacheco, São Paulo

O rei Tzibor (de Alma Welt) 

Eis que vem o rei Tzibor cavalgando
No seu corcel de pau e o escudeiro,
Com seu elmo de ferro desfilando,
Com planos de trair seu povo inteiro...

A fila de ciprestes, seu cenário,
O situa de maneira um tanto vaga
Num mundo de razão meio precário
Com a Morte e Loucura como praga...

E então eu pergunto ao velho artista
O que sabe do rei fraco e grotesco
Em sua visão crua e realista...

E ele me responde que não sabe
Porque um rei só precisa parentesco
Com um parvo que no seu próprio pé babe...
 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Sonetinho para São Francisco (de Alma Welt)


São Francisco dos peixes - óleo s/tela de Guilherme de Faria, 40x30cm

Sonetinho para São Francisco (de Alma Welt)

Entre os santos, além do meu Negrinho,
Aprecio bastante o São Francisco
Que falava com as aves no caminho
Mesmo que no olho entrasse um cisco,

Quando não coisa pior vinha no ar...
Mas o que mais merece estudos
E faz a gente mesmo se ajoelhar:
Peixes lhe escutarem embora mudos!

Mas ele ser poeta explica tudo
Pois um vate está no meio do caminho
Entre a santidade e o tal chifrudo

Que também adota estes coitados
E os faz viver de palmas, vento e vinho,
Para serem afinal pobres diabos...

domingo, 11 de março de 2012

O Jovem Frade (de Alma Welt)


Jovem Frade - óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 1991

O Jovem Frade (de Alma Welt)

Havia um frade jovem na cidade
Que guria me levaram a conhecer
Pois vivia em odor de santidade
E que achavam me podia converter.

Então me recordando do Aliocha
O melhor dos quatro irmãos Karamazov
Encontrei-o com um velho a jogar bocha
Algo que por pouco me comove.

Mas pensando no stáriets Zósima
O velho e sábio santo do romance
Fomos a uma lanchonete próxima.

E logo por amor de um jovem frade
Meu coração quase abriu-se num relance
Para a minha própria santidade...

quinta-feira, 1 de março de 2012

Soneto para São Francisco (de Alma Welt)


Cabeça franciscana- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 1999, 40x30cm

Soneto para São Francisco (de Alma Welt)

Há um santo por quem tenho simpatia
É o tal São Francisco das pombinhas
E de outros pássaros que ele via
Assim como as incríveis andorinhas.

E dizem, era bem chegado em peixes,
Em ficar nu tirando a roupa num zás-trás
Como eu quando temo que me deixes
E provoco que me olhes como o faz...

Mas dizem que era casto, coisa estranha,
Pois assim que fico nua fico louca
A dançar a tarantela como a aranha

Que não consta que o Francisco apreciava
Já que era santo por não dormir de touca
E não deixar que nem a Clara lhe tocava...