sábado, 7 de novembro de 2009

O Vício do Soneto (de Alma Welt)

Sim, preciso afinal me confessar:
Estou mesma viciada no soneto,
E como em consultório não me meto,
Esse vício vai por certo me matar.

Pois já ando com lápis e bloquinho,
E até com o toco atrás da orelha,
Como o da padaria, lá, do Minho,
Pro verso que me dará na telha,

Pulando um riacho ou na campina,
A brincar com os infantes no jardim,
Até no leito, que não mais de menina,

Onde em ondas de múltiplos orgasmos
Me pego a ver tercetos dentro em mim,
E sílabas contar por entre espasmos...

(sem data)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A vida (de Alma Welt)

A vida, meu amigo, é tão estranha
Que não fosse o risco de uma rima
Eu diria que é a teia de uma aranha
E no centro está aquela que dizima.

Ou então que a vida é uma aventura
Num trem fantasma de verdade
Em que os companheiros de tortura
Vão sumindo a cada feia novidade.

Ou ainda que a vida é uma trapaça
E que somos nós o trapaceiro
Vendedor de elixires de cachaça

Para nós e até para os amados
A quem amor juramos, verdadeiro,
Quando mal suportamos nossos Fados.

(sem data)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O sentido da Vida (de Alma Welt)

Viver é já por si um bom mistério
Sem resposta no plano da razão
E somente um suposto plano etéreo
Vem ainda alimentar nossa ilusão.

Pois se pensarmos muito no sentido
De estar aqui a comer e ver televisão,
Mesmo sendo um filme divertido,
Ou pior: americano e... de ação,

É pouco, muito pouco e fim de linha
Para uma caminhada tão sofrida,
Já que a humanidade assim caminha.

Mas ser poeta é encontrar o tempo todo
A beleza até na Morte, para a Vida,
A tal da flor a brotar em meio ao lodo...

28/07/2005

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O pacto (de Alma Welt)

A vida, meu amigo, não perdoa
O menor engano, erro ou deslize
E cobrará de modo que te doa
Seja aqui, em Paris ou em Belize.

Não poderás fugir pra Patagônia
Se na hora mesma da conquista
Trocares uma rosa por begônia,
E essa não for a flor bem quista.

E se pela atração de suas peles
Casares com um ser incompatível,
Acordo que nem sabes quando seles

E que o Tempo cobrará, embora lento,
Verás que os orgasmos de um momento
Se tornaram essa tua vida horrível...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O mestre (de Alma Welt)

As coisas não ocorridas
atravancam o caminho
Livre-se do ogro
do malogro
Assim dizia um mestre
que inventei
e que se dedicava a fazer nada
com solene inflexão
nos detalhes
Eu ria e ria
com meu mestre
que era a parte enternecida
do meu sonho
detestava não encontrar
o café pronto
e tinha pouca tolerância
com os tolos

Bah! Como dançávamos e ríamos
nos dias de verão no meu jardim
e nas noites também
antes de saber que ele me amava
e nisso consistia o seu saber,
que no mais era um amável
charlatão

Não precisei mandá-lo embora
o meu mestre
Ele se foi em noite conturbada
em que eu batia forte na janela
e não me atreveria a detê-lo
e menos seguí-lo
na tempestade
pois ele mesmo me ensinara
o comodismo
a não intervir na correnteza
o sábio fluxo das coisas
que simplesmente são.

No fundo
não perdi meu tempo
acalentando meu bizarro mestre
(que todos os mestres bem o são)
já que não podemos mesmo ensinar
e menos aprender
pois não sabemos ainda
o que é a Morte
e o misterioso porquê
disto tudo
enquanto a chuva cai
e a relva brota.


Nota
Acabo de encontrar este estranho poema na Arca da Alma, e que me pareceu humorístico. O humor da Alma tinha um toque verdadeiramente bizarro, mas não podemos chamá-lo de "nonsense", pois ela parecia saber bem o que queria dizer. Suas certezas eram muito fortes, apesar de tudo, de toda a perplexidade ante o mistério fundamental da existência. ( Lucia Welt)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Aos forasteiros (de Alma Welt)

Na Santa Gertrudes, velha estância,
Antes "Farroupilha" assim chamada,
Quando o forasteiro sem ganância
Chegar, deslumbrado, pela estrada,

Avistará o vetusto casarão
No outeiro de outrora tantos ais
E que muito resistiu a um canhão
Impiedoso nas mãos imperiais,

Logo um jardim, flores e graças,
Entre as quais me incluo sem pudores,
Biscoito fino inatingível pelas massas.*

Depois, adentrando a grande sala
Vê o retrato de um maestro sem tambores*
E diante do Steinway que agora cala...

08/09/2006



Notas
Ah! Um soneto humorístico, inédito, da Alma, que acabei de descobrir, encantada...

*...biscoito fino inatingível pelas massas- Irônica paráfrase da famosa frase de Oswald de Andrade: "A massa um dia comerá o biscoito fino que eu fabrico".

*Retrato de um maestro sem tambores- Inusitada maneira non-sense de referir-se ao nosso pai, o Vati (Werner Friedrich Welt) músico erudito e grande pianista, falecido.
(Lucia Welt)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Filme ruim (de Alma Welt)

Nunca esquecerei um filme ruim
Mas que tinha um diálogo curioso
Um pistoleiro tocava firimfim
Uma gaita ao lado de um feioso

E parando de repente aquela manha
Pergunta se ele achava que a vida
É semelhante à ferrovia de montanha,
E recebe uma resposta divertida

Que ainda me ressoa e reverbera
Pois o povo pode não corresponder
Àquilo que o homem culto espera

Mas reflete o nosso oculto parecer:
“Não sei não, nada sei, meu camarada,
Só sei que igual a vida não vi nada...

(sem data)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Pinóquio (de Alma Welt)

Quando guria recebi aqui na estância
A visita deslumbrante de uma prima
Que vi como encarnação da infância
Sulina, clara e ingênua obra-prima.

E não pude resistir a convidá-la
Ao galpão, meu “templo dos amores”
Onde eu poderia “fazer sala”
Mostrando meus brinquedos e pendores.

Mas lembro que surgiu a dona Ana
E nos interrompeu doce colóquio
Com a varinha de marmelo açoriana

Quando já nos reclinávamos na palha,
Eu a contar a saga do Pinóquio,
Sem o mágico nariz, que é minha falha...

(sem data)

Banho de inverno na cascata (de Alma Welt)

Os dias estão frios, não escuros,
E não quero esse inverno a afligir-me,
Mas inquieta me porei em ais e apuros
Com meu mano à cascata ao dirigir-me

Pois sou logo atraída pelas águas
E mesmo me desnudo a tiritar
E faço o meu banho de espantar
Com Rodo a aspirar minhas anáguas.

Então é a vez, eu já vestida,
Do pênis deste atleta de praínha
Fazer nessas águas a investida

Pois já me acolhera no seu pala
Aquecida no seu peito, assim nuínha,
E dissera-me, apontando: “mira, estala!”

(sem data)

Álbum de memórias (de Alma Welt)

386


Meu álbum fotográfico do Pampa!
Bah! Como narram minha história
As fotos em que o rosto meu se estampa
Fundidas co’as que guardo na memória!

Ali me vejo pequena e cacheada,
Com estranho vestido até os pés,
De antiga gola branca e rendada
E co’aquele olharzinho de viés.

Depois, donzela branca e sensível
A colher flor no jardim ou na campina,
A Infanta que a si mesma se imagina.

Depois ainda, a pintora-poetisa
Pincel na mão e a paleta indefectível
Muito melhor que o quadro, e mais precisa...

(sem data)

Colombina (de Alma Welt)

335

É Carnaval e então a carne vale
E pelo oposto até tento me vestir
De Colombina, e que eu me rale
Para um Pierrot aqui me descobrir.

Na Pampa a fantasia está no lucro
Mas só de “gáltcho” macho e de chinoca;
Coringa foi tirado até do truco,
E Arlequim também não sai da toca.

Mas, delirante, correndo neste prado
Quero despir meu corpete e o saiote,
Deslocados que estão para o meu fado.

E logo nua, colocando a fantasia
No topo de um mourão, mero pacote,
Ateio fogo, como outrora se fazia...


20/02/2004

A Flauta de Pã (de Alma Welt)

333

Em meio à pradaria esta manhã
Topei um peão chamado Acácio
Que como um pastor do antigo Lácio
Tocava estranha flauta: era de Pã.

Atraída, perguntei-lhe se sabia
Que essa flauta antiga assim chamava
E que com ela Dionisos comandava
Os cantos, as danças e... a orgia.

Então o pastor, desconfiado,
Olhou-me suspendendo o seu trinado
E respondeu com a charla de gaudério:

“Patroa, esta gaita é de família,
Nunca tocou só pr’uma guria,
E meu avô a ganhou num monastério.”

12/05/2005

Camerata pampiana (de Alma Welt)

315

Corramos, meu irmão, depressa, vamos!
Pois temos muito chão nesta campina,
Se pro almoço atrasados, só, chegamos,
Haverá solo de relho e em surdina.

A Açoriana, maestrina, nos espera
Com a batuta na mão, e de marmelo.
Nos “fortíssimos” é onde ela se esmera,
Dos quais tenho um medo que me pelo.

Mas, bah! meu Rodo, valeu tanto
Ter estado contigo em camerata,
Nossos arpejos, sem pejos, na cascata...

Ai! Minha pele canta como os lábios
Lembrando teus abraços e o encanto
Dos teus “pianíssimos” tão sábios!

03/09/2006

Odisseu (de Alma Welt)

288

"Somos para a Morte", disse alguém,
E desde então eu me pus a meditar,
Coisa inusitada para quem
Todas as dádivas vieram se somar.

A beleza é vã, efêmera, fugaz,
Diz Matilde, o que a Mutti já dizia,
E eu desconfio que apesar de pertinaz,
Tal pensamento deriva da apatia.

Ah! Odisseu, meu grego predileto,
Que disseste (e por isso foste honrado)
O quê é o homem? Cabal, doido completo

Que se acaba com um simples resfriado
E que no entanto, aqui como em Elêusis,
É capaz de afrontar os próprios deuses!

A leitoinha (de Alma Welt)

274

Galdério, prepara a tua charrete
Que hoje não quero cavalgar!
Leva-me como quando eu tinha sete
E dormia no teu colo ao regressar

E me tomavas nos braços com candor
Ao salão me transportando sem eu ver,
Me punhas sobre a mesa por humor,
Dizendo: “Hoje leitoinha vamos ter!”

E eu já despertada mas fingindo
Não resistia e gargalhava afinal
Sem ousar abrir os olhos, sensual,

Pois sentia o teu olhar tão inocente
Percorrer meu pequeno corpo lindo
Que queria ser tomado docemente...

09/07/2006

A blefadora (de Alma Welt)

251

Irmão, dá-me a mão, ó meu amigo
Entre este verde e o azul celeste!
Amanhã não estarás comigo
Mas sim na venal Punta de Leste.

À mesa, com as cartas, nem te lembras
Da dama com quem corres estes prados,
E só verás rainhas de outras lendas,
Valetes, reis e coringas abobados.

Embora saibas sempre que te quero
E a mão que tenha seja ruim,
Blefo ao fingir que não te espero.

Bah! Como sou boa jogadora!
Minhas cartas a esconder de mim
Numa aberta caixa de Pandora...

16/01/2007

De pôquer, amor e cinismo (de Alma Welt)

248

Bom jogador mas cínico fantástico,
Meu irmão ganhou uma bolada,
Chegou jogando a pilha com elástico,
Dizendo: "É todo teu, não quero nada!"

"Só retirei um pouco para o jogo
Pois o pôquer bom é o seguinte,
A nova mão, o blefe e o logro,
Pois jogar é um roubo com requinte."

"Todavia se fizeres bom proveito
E levares este barco para adiante
Mesmo com a Poesia tua amante,"

"Eu me sentirei mais liberado
Pra ganhar ou perder com teu respeito
Pois a Alma sorri e sou amado..."

Estória do umbu-rei (de Alma Welt)

(222)

Por amor a esta paisagem grandiosa
Mais de uma vez empunhei a carabina,
Mas foi um erro o que me fez ficar famosa
E salvar o umbu desta campina.

Foi quando um vizinho me peitou
Dizendo que estava em sua terra
O umbu onde Martinho se enforcou,
Que a árvore era sinistra e que aberra.

Então, melodramática, me amarrei
Ao tronco, disposta a ali morrer,
Com o risco de outra coisa acontecer

Pois fez com que o "gáltcho" gargalhasse
E rasgando meu vestido me mirasse
Dizendo: "Esse umbu agora é rei..."

29/12/2006

Vento Haragano (de Alma Welt)

(207)

Uma tarde caminhando no meu prado
Fui surprendida por um vento quente,
Súbito, oblíquo e eloqüente,
Que parecia estar bem humorado

Pois que levantou a minha saia,
Bah! Eu estava sem calcinha
E ouvi um som como uma vaia,
Imaginei, pois estava ali sosinha.

Então sem sequer muito escurecer,
Logo a chuva quente desabou,
Deliciosa, que chegou a comover.

E eis que me despi naquele plano
Com a chuva, o vento e o seu show:
Eu acabava de encontrar o haragano...

19/10/2006

A esquisita (de Alma Welt)

(201)

Minha mãe quis mostrar-me pr'as visitas
Apesar de minhas maneiras "esquisitas",
E pediu-me que cantasse umas canções
Ou recitasse um verso de Camões.

E eu, para honrar a minha fama
Fui passando muito além da Taprobana
E meti um soneto da minha lavra
Com a melhor das intenções... palavra!

Ainda mais com minha ênfase de atriz,
Já que aquele minha mãe não conhecia,
E fiz a pobre corar até a raíz

Pois com verso controverso não contava,
E às visitas logo mil perdões pedia
Enquanto eu da sala me esgueirava...

28/10/2006

O pedido (de Alma Welt)

(198)

Tanto que a Mutti me dizia
Que o destino da mulher é o casamento
Que até para mim chegou o momento
De dar o sim a alguém que me pedia

E que fora um colega meu de escola
Desses que nunca pediu cola
E que me tinha tal veneração
Que junto a mim travava, em comoção.

Então chegou um dia resolvido
E diante dos meus pais fez o pedido
Balbuciando, trêmulo e alvar.

Puxei-o e disse, ali, na sala ao lado:
"Darei pra ti, esta noite, com agrado,
Se prometeres nunca mais voltar."

01/12/2006

De lobos e guris (de Alma Welt)

(196)

Minha mãe dizia haver um lobo
No bosque aqui perto e emboscado
E que eu deveria ter cuidado
E nem sequer ir ali com o meu Rôdo,

Pois meu irmão, guri bem destemido,
Não seria páreo pro vilão
E que depois de assado e comido
Eu seria a sobremesa alí à mão.

Mas a curiosidade era mais forte
E eu entrava com ele ou sozinha
Embora jogássemos com a sorte

Pois a verdade era que eu creía
Haver o lobo que comia criancinha,
E até hoje ainda creio: o lobo havia.

13/01/2007

A Tentação da Alma (de Alma Welt)

(152)

Uma vez estando eu a passear
Pela minha dourada pradaria,
Como de hábito imersa num cismar
Que me levava além da alegoria,

Onde coisas, numes, deuses, tudo junto
Cercava-me e querendo-me com eles,
Eu encontrei um tal Mefistofeles
Que não fazia parte do conjunto,

E este rogou-me desnudar-me
Que queria que queria admirar-me
Prometendo-me tesouro todo à parte.

E eu que não me faço de rogada
Fiquei nuínha, e sim, sem querer nada,
Disse: "Eu mesma sou o Ouro e a Arte!

03/12/2006

Lendas do meu bosque (de Alma Welt)

(146)

O meu bosque reserva o seu segredo
Para quem tem olhos e ouvidos,
Poucos, na verdade, os escolhidos
Capazes de adentrarem-no sem medo.

Principalmente quando no crepúsculo
Principiam as fantasmagorias
E aquele vago lusco-fusco
Produzido por ocultas fadarias.

"Nada de bosque!" alertava a Matilde
"Que ali o malígno espreita
Tanto guria nobre como humilde."

"Conheci uma que sumiu e não mais vi
Para me contar que coisa é feita
Com aquelas que se agacham pro xixi..."

15/01/2007

O volátil real (de Alma Welt)

(141)

Estou correndo o risco de viver
A vida de soneto em soneto
Pois somente neles posso ver
A mim e meus fantasmas, como um gueto.

Tenho em volta a mim tanta beleza,
Este pampa, a pradaria, os animais,
E já não consigo ter certeza
Se são apenas versos ou reais.

Está faltando o senso do palpável,
Ou da tênue fronteira do real,
E temo já nem parecer saudável

Pois sinto que me olham já de esguelha,
E faço com o Rôdo uma parelha
De irmãos siameses do Nepal...*

19/01/2007

A princesa em farrapos (de Alma Welt)

(136)

Havia um peão na minha infância
Que me salvou de pequena enrascada:
Eu fora atravessar com muita ânsia
Uma cerca e fiquei toda enroscada.

Meu vestidinho enganchou-se no arame,
E quanto mais aflita, mais vexame.
Até que o peão chegou solícito
Com um carinho sério, mas implícito.

E ficando meu vestido em farrapos
Fui trazida em seu cavalo qual princesa
Que tivesse se perdido na floresta.

Mas chegando ao casarão levei sopapos
De minha mãe, a rainha da dureza,
Eu que esperava (e ainda espero) aquela festa...

12/01/2007

Debaixo da macieira (de Alma Welt)

(135)

Debaixo da minha macieira,
Por sagrada que é, fui desnudada.
Pela primeira vez a gurizada
Podia ver a guria nua inteira.

Então um guri, quase um piá,
Apontou-me o dedo ao baixo-ventre
(esse guri até ontem vi por cá ):
"É isto que tu vai dar pra gente?"

"É tão pequena, um risquinho, sem pipi!
Bah! Não vale a pena, dou desconto,
Mas te quero ver fazer xixi."

E foi então que em leve desaponto
Sem agachar-me urinei-me pela perna
Para uma platéia atenta e... terna.

17/01/2007

A casamenteira (de Alma Welt)

(117)

Pintei-me nua com grande realismo,
Que ao ver a tela a Matilde até gritou:
"Guria, apaga tudo, isso é nudismo!
Já não basta viveres dando show?"

"Eu vejo que és nudista empedernida
E estás cada vez mais descarada,
Se eu fosse a tua mãe, a falecida,
Ia dar-te era mais muita palmada!"

"Eu sei, tu és guapa, mas te guarda,
Vai por mim, que sou casamenteira.
Quem quererá o que não se resguarda?"

"Se te escondes porfim te esquecerão
E haverá alguém que ainda não
Te viu pelada e pague entrada inteira..."

12/01/2007

Recordações da guria do pampa (de Alma Welt)

(112)
Quando guria subi no umbu pampeiro
Para ver o mundo lá de cima
Mas logo deparei c'um formigueiro
E perdi por um minuto a auto-estima.

Gritei: "Rôdo, Galdério, me acudam!
Não sei mais descer, estou com medo,
Aqui tem formigas e elas grudam,
E já uma delas me picou o dedo!"

Rôdo, rindo até rolando, retorquiu:
"Bah! Quem te queria ver pelada hoje viu,
Já que estás por baixo sem calcinha,"

"E agora que estás nessa forquilha,
Cuida que não entre formiguinha
Nessa tua rachinha-maravilha!"

12/01/2007

Soneto do dique (de Alma Welt)

(102)

Quando guria, no galpão eu costumava
Vir sentir o cheiro agradável
Do feno da forragem e do provável
Tonel vazio de vinho que sobrava.

E foi ali que ouvi gritos e gemido
Que jamais ouvira nem num quarto,
E aproximei o peito comovido,
Pensando que alguém estava em parto.

E eis que, pela fresta, muito tesa,
Vi de quatro (que jamais esperaria),
As nádegas de Elke, a holandesa,

Sendo bombeadas por Henrique
Cuja imensa ferramenta permitia
Ver por onde ia vazar aquele dique.

11/01/2007

O tamanho do mundo (de Alma Welt)

(95)

Guria andei sozinha numa estrada
Aqui mesmo na estância, para ver
Aonde ela ia dar, e desastrada
Não cogitei da confusão que ia fazer.

Andei por uma hora e não acabava,
E já passava da hora de almoçar.
Pensei: mais uma hora pra voltar...
E sentando à margem mais chorava.

Então vi o Galdério na charrete
Que a mando do meu pai me procurava
E conhecia muito bem esta pivete

E levantando e enxugando o ranho
Eu disse: "Ah! Galdério, eu não contava
Com que o mundo tivesse esse tamanho..."

06/01/2007

O pastor sem remorsos (de Alma Welt)

(88)

Um jovem pastor aqui da estância
Resolveu se aproximar do casarão:
Não vira piscina em sua infância
E queria ver a filha do patrão

Nadando, como sempre, assim pelada,
E escondido, então, atrás da sede,
Ali fica por quase uma jornada,
Enquanto uma ovelha se escafede.

E quando afinal interpelado
Por quê e se não ia arrepender,
Já que uma ovelha até morreu

Ele com o olhar emocionado
Disse afinal, sustentando o meu:
"Eu mesmo já podia até morrer..."

04/01/2007

O valete (de Alma Welt)

(83)

Acompanhada do meu cão Orfeu
Eu me ponho a andar na pradaria.
Isso faço como um rito meu
E como forma de começar meu dia.

E fico atenta a tudo o que ele indica
Enquanto ele parece me mostrar
Tudo o que a ele significa
Alguma coisa que mereça se notar.

E hoje ele notou (não me consterna)
Que sangue me escorria pela perna
E ele veio lambê-lo com doçura.

E eu o deixei fazer a minha "toilette"
Pois sei que a natureza é muito pura
E o meu Orfeu... o melhor valete.

11/01/2007

Uma canção às donzelas (de Alma Welt)

(80)

Amai, donzelas, e se possível, dai-vos.
Nada se leva desta vida muito breve.
Direi como os antigos: coroai-vos
De flores, e que a dor o tempo leve.

Chegamos náufragas no mundo,
Donzelas encantadas qual Miranda*
Diante das mesuras e ciranda
Dos mancebos que sempre vão ao fundo*.

Perdemos a inocência lentamente,
Eis o nosso encanto e candura,
E tudo foi criado docemente

Por um Deus que ama tanto a criatura
Que a concebeu assim, urna selada,
Mais preciosa depois de violada.

03/01/2007

Buenas falas (de Alma Welt)

(78)

O "gaucho" velho entrando se achegou
Trazido por meu pai à nossa sala
E pegando o meu queixo me olhou
Fundo nos olhos antes desta fala:

"Buenas, tchê, que prenda rareada!
Esta guria vai falar por todos nós,
Não somente pelos pais e os avós
Mas por todo o vinhedo e a peonada."

"Mas, bah!, co'esses olhos verde-guampa
Que atravessam o coração e causam dor
Não haverá par pra ela neste pampa!"

"Ela não se casará, infelizmente,
Mas não te preocupes que o amor
Será desta alma um bom servente..."


03/01/2007

Primeiro do ano (de Alma Welt)

(70)

É primeiro do ano na fazenda
E vou cedinho andar na pradaria
Para abrir a minha nova agenda
Que é toda esperança e alegria.

Sou viva, tenho humor e estou jovem,
Tenho só que agradecer os privilégios,
Muitos fatos e pessoas me comovem.
E os presentes da vida me são régios.

Estou só, eu sei... como não estar?
Quero dizer, nascemos assim, tão...
Mas tenho tudo para encontrar meu par:

"Não é bom que a fêmea viva só",
Disse Deus que a criou antes do Adão
E a escondeu pra que assentasse o pó...

01/01/2007

Mil sonetos (de Alma Welt)

(55)

Sei que um dia farei soneto "mil"
Como já o fez o rei Pelé
Que sendo vate de peito-de-pé
Cada gol era um soneto do Brasil.

Mas eu que não sou louca mas gaúcha
Em vez de ir por aí à queima-bucha,
Vou pela vida com talvez pouco juízo
Como se só sonetar fosse preciso.

Pois suspeito ainda, na verdade,
De que tanto soneto razoável
E uns poucos acima da metade

Vão erguendo o castelo, monumento
Que construo a cada vão momento,
Uma carta, um sonho, ah! quão instável...

23/12/2006

Estórias de *gaudérios (de Alma Welt)

(49)

Ontem caiu atroz tormenta
Sobre os campos e tetos da fazenda,
Relâmpagos que o povo ainda comenta
E um raio que começa virar lenda.

"Matou um novilho?"-um diz-“não, foi touro,
Não viste, tchê, aquele estouro?”
“Eu fui e vi sim a barrigada
Da rês, pela relva esparramada...”

“Bá, compadre, não me venha
Com conta de gaudério, te conheço.
Morreu somente um cão que desconheço,”

“Mas não importa, tchê, foi coisa brava,
O *Gaucho lá de cima desce a lenha
Quando encontra a porta com a trava!”

22/12/2006

Um conto de fada da Alma (de Alma Welt)

(48)

Uma vez, acreditem, encontrei
Uma fada no bosque aqui da estância,
Era já passada a minha infância,
E comovida eu quase desmaiei...

Sei que uns leitores estão zombando,
Algum pode até estar zangado,
Achando que eu estou extrapolando
Não atina o que me tenha motivado.

Ó amigos da surpresa e do espanto!
Eu juro que não sei como ela veio
E se ainda hoje comigo ela caminha,

Pois ela me tocou, pra meu encanto
(não acreditem em estória de varinha )
Pasmem! com os lábios no meu seio...

21/12/2006

Eu e os piratas (de Alma Welt)

(43)

Meu irmãozinho construiu embarcação
Toda de caixotes, pouco destra,
Com um cabo de vassoura e armação
Que pretendia ser a vela mestra.

E a arrastamos juntos ao laguinho
Da cascata, pra com ela navegarmos
Como piratas, eu com bigodinho,
Ele com a venda e os sarcasmos.

Mas eis que me vi numa enrascada,
Pois borrando meu bigode com o dedo
Ele disse: “ Descobri o teu segredo!”

“Já que és mulher és cobiçada
E vais ficar pelada e com medo,
Pois serás de toda a marujada!”

20/12/2006

De pássaros e plumas (de Alma Welt)

(35)

Uma vez, quando pequena, na varanda,
Eu vi aproximar-se um cavaleiro,
Estávamos no mês de Fevereiro
E chovia, assim, como Deus manda.

E ele vinha, com a viola, encolhido
Como pássaro molhado, e sem amigo.
Um gaúcho não ereto, mas transido,
Apeando e pedindo sopa e abrigo.

Meu pai, pela viola o fez entrar,
O levou, antes da ceia, pro chuveiro
Pra despir e com água quente se banhar.

E eu, piá, na porta do banheiro
Fiquei, ali, fascinada, a observar
Aquela ave novamente se emplumar...

18/12/2006
Corre égua minha... (de Alma Welt)

ou
O Dom Quixote de saias...

(12)

Corre, égua minha, vai lampeira
A cauda e longa crina ondeando!
Vai, mas vai sem mim, que estou te olhando
Sentada, triste, aqui nesta soleira...

Eu vejo que te nutres do olhar
Da tua amazona preguiçosa
Que por hoje prefere declinar
Do teu belo convite, coisa honrosa.

Ora me aperta o peito arfante...
Mal posso imaginar-me no teu lombo
Na fúria de um galope rocinante,

Pois acabo de levar um grande tombo,
E perdido o meu amor, restou o mote:
Descadeirada estou qual Dom Quixote!

15/12/2006