sábado, 15 de outubro de 2011

Marguerita La Loca (de Alma Welt)


Mad Mag - Lito de Guilherme de Faria

Marguerita La Loca (de Alma Welt)

Estando eu louca e internada,
Vestindo camisa de onze varas
Numa Clínica daquelas meio caras
De que não quero nova temporada,

Conheci a Marguerita, grande dama,
Vestida de babado e laçarote
Sentada quando fora de sua cama
Sempre acompanhada dum mascote,

Com seu chapéu imenso de outra era
Imóvel em sua cadeira de balanço
Para não despertar sua própria fera...

Mas o bichinho a olhá-la do poleiro
Tinha um certo olhar e um vago ranço
Do qual ainda hoje sinto o cheiro...

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Quase (de Alma Welt)

Alguns de nós ficamos quase ricos,
Alguns, quase felizes, mas nem tanto;
Outros restamos quase invictos,
E houve um que quase virou santo.

De nós, de nosso grupo quase unido,
Houve os que quase foram pro Tibet,
E um de nós, que foi mais atrevido,
Quase foi pra Sibéria andando a pé.

Mas todos, quase todos, nos perdemos
De nossos sonhos perfeitos, de guri,
Que quase alguns de nós ainda temos.

Somente eu, que quase me cumpri,
Estou firme, quase, nesta estância,
Fiel ao quase-quase meu, da Infância...
_______________________________

Agora uma tentativa minha de transliteração para o idioma inglês (tradução livre para preservar rimas) do soneto "Quase" da Alma Welt

Almost (by Alma Welt)

Some of us are almost rich, indeed
Some, almost happy, but aint
Others remain almost undefeated,
And there was one who almost became a saint.

From us, that almost united group could
And there were those who almost went to Tibet,
And one of us, who, daring should,
He almost went to Siberia on foot, I bet

But everyone, almost everyone, got lost
Of our perfect dreams of a boy,
As almost some of us still alive or ghost

Only me, who almost fulfilled myself as some
I am firm, almost, in this ship (ahoy!)
Faithful to the almost-almost of my home.

.
09/01/2007

Or:

Almost (by Alma Welt)

Some of us are almost rich, I know;
Some, almost happy, but not so
Others almost undefeated there remain
And there was one who almost became a saint.

From us, from our almost united gang
There were those who almost went to Tibet,
And one of us, who was more bang bang
He almost went to Siberia on foot, I bet.

But all, almost all, we get lost
Of our perfect dreams of a boy,
That some of us still have or almost

Only me, who almost fulfilled myself, uncost
That I am firm, almost, in this toy
True to almost-almost of mine, and I enjoy...

As Três Graças (de Alma Welt)


As Três Graças - Antonio Canova 1757-1822


As Três Graças (de Alma Welt)

Quando esteve aqui um certo conde
Convidado de meu pai e seu amigo,
Guria, fui brincar de esconde-esconde,
Recurso feiticeiro e muito antigo,

Pois com as irmãs Lucia e Solange
Entre risos, rodopios e pirraças,
E beijos, que só à Sol constrange,
De repente formamos as Três Graças.

Então, o nosso conde embasbacado
Vendo aquela cena antiga e grata
Resolveu não nos deixar sem um noivado.

Mas meu pai, churrasqueando, deu desconto,
E sorrindo respondeu ao aristocrata:
“Perdão, mas nenhuma está no ponto...”


04/04/2004

domingo, 5 de junho de 2011

Alma Rapunzel (de Alma Welt)

Quando criança, tendo lido Rapunzel
Quis deixar meu cabelo longo assim
Para encarnar-me totalmente no papel,
Que me achava numa torre de marfim

Apesar de aí correr pela coxilha,
Desfrutar de meu irmão neste pomar
E tudo o que uma prenda, como filha,
Jamais assim fez antes... nem pensar!

Mas quando minha ruiva cabeleira
Se achava já aqui pela cintura
Minha mãe se irritou sobremaneira

E quando eu lançava um longo cacho
Pra que subisse minha bela criatura,
Deu-se o corte: “Vais sossegar o facho!”

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Macunaíma de saias (de Alma Welt)

Ninguém me diga que nem tudo revelei
E que fiz do meu soneto promoção
De mim, do pouco ou muito que pensei
Ou do meu jeito de tomar o chimarrão,

Quero dizer... do meu modo de vida,
Aliás considerado extravagante
Com esta tendência assumida
Ao nudismo e à poesia divagante.

Já contei até minha internação
Que terminou com fuga pela estrada
E quase estupro por chofer de caminhão.

Bem... sou afinal anti-heroína,
Minha poesia não serviu pra quase nada,
De saias fui talvez... Macunaíma!

(sem data)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Transferências (de Alma Welt)

Viver é certamente bem difícil,
E mais se começamos a pensar
No nexo ou razão de tudo isso,
Que é melhor então deixarmo-nos levar.

Bah! Viver como toda a maioria
Sem sequer pensar na transcendência,
A religião sendo mera alegoria
E a morte uma questão de transferência

Pois só ocorre com o outro, de verdade,
Enquanto a nossa própria é impossível
Pois Deus não nos faria essa maldade...

Embora talvez não haja um Deus
Pois não temos algo assim... plausível
Pra provar àqueles outros, os ateus...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O anti carnívoro (de Alma Welt)

Na vida quase tudo é relativo,
O bem e o mal e a temperança
Um justo tinha horror ao Cristo vivo
Pelo sermão seguido de matança

De peixes que também são seres vivos
E temem a morte como as gentes.
Assim falou Leonardo, não em livros,
Em códices bem pouco complacentes.

Mas as plantas seres também são,
E algumas até bem sensitivas...
Desconfio que têm um coração.

Então é melhor passarmos fome,
Porque por aqui somos visitas,
Em um deplorável come-come.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O dia a dia da Poesia (de Alma Welt)

Que poeta eu seria se tivesse
Que esperar a bendita inspiração,
Torcendo pra que logo ela viesse
Para decolar do rés do chão?

Ou bater na porta da minha Musa
Por colher de açúcar ou por um ovo,
Como a vizinha, a tal, meio confusa
Que é uma expressão do nosso povo?

Jamais cozinho eu meu belo almoço
Com bons ingredientes emprestados,
Nem pra tentar trazer aquele moço

Que mora bem no fim do corredor,
E que nos põem assim alvoroçados
Se cruzamos corações no elevador...

domingo, 9 de janeiro de 2011

A Velha Torre (de Alma Welt)

Ainda construímos nossa torre,
Na babel de nossos sonhos incompletos;
Passamos dos limites como um porre
Acreditando ainda sermos prediletos.

Mais mimados pelo Pai que castigados,
Nós iremos até onde Ele deixar;
Filhos tão turbulentos, desleixados,
Que até emporcalhamos céu e mar.

Naturalmente isso não vai acabar bem,
Temos tudo pra dar c’os burros n’água,
E depois rimar com a velha mágoa...

Esperando a herança e não um pito,
Ostentando humildade quem não tem,
Vestiremos nova pele de cabrito...