quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O Grande Circo (de Alma Welt)

A nostalgia é a nota dominante
E oscilo entre ela e a saudade
Do meu próprio sonho a todo instante,
Jamais realizado, na verdade...

O mundo não ficou ainda mais belo
E a poesia não chegou ao paraíso.
Cresci e não cresceu o meu juízo,
E passeiam os civis de parabelo... *

Marx estava errado, não funciona,
Pois o homem só cresce na ambição
E o circo penhorou a sua lona.

De circo entendo mais que de finanças
Como Jesus, equilibrista do Sião,*
Que era bom com os pratos das balanças...

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14/12/2016

Notas
*E passeiam os civis de parabelo - alusão à "tradução " humorística do Millôr Fernandes do mote latino "Si vis pacem parabellum". que significa: "Se queres a paz prepara-te para a guerra." Millôr a traduziu jocosamente: "Civis passeiam de parabelo", trocadilho cheio de contemporaneidade... ("Parabelo" é um tipo especial de eficiente pistola alemã, que no sertão nordestino era usada por Lampião, rei do Cangaço)...

*De circo entendo mais que de finanças/ como Jesus...-
Este verso ecoa aqueles de Fernando Pessoa: "... O mais que isso, é Jesus Cristo/ que não entendia nada de finanças/ nem consta que tivesse biblioteca...

domingo, 11 de dezembro de 2016

A Rainha do Soneto (de Alma Welt)

No soneto posso tudo, sou rainha
E pastora esfarrapada num instante,
Perambulo ociosa pela vinha
Procurando entre os peões o meu amante.

Sou louca, aventureira e cortesã
E tenho minha cabeça por um fio.
A pobre Antonieta era minha fã
Antes da dela rolar no meio-fio...

Jezebel era um poço de virtudes,
Cleópatra uma moça casadoira
E com a historia do tapete tu te iludes.

Mas no último verso do terceto
Me defronto com aquela que é a Moira
E boazinha sou, eu que era espeto...

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11/12/2016

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Se (de Alma Welt)

Viver como se o mundo fosse bom
Embora sabendo quanto é ruim
Eis o segredo, timbre, cor e tom
De uma vida fecunda, para mim...

Mas se enganas tua mente e te iludes
Não funciona nem um pouco a equação.
É preciso que por dentro não te mudes,
Nem sejas, falso, um bom camaleão...

Eu gostava dos ingleses de Vitoria
Que eram fleugmáticos perfeitos,
Pelo menos assim consta na História...

Mas se, qual Dorian, vives só para o prazer
E acordas em desconhecidos leitos
De Vênus trate da camisa não esquecer...

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09/12/2016

sábado, 3 de dezembro de 2016

O gato e o guizo (de Alma Welt)

Quisera, no ser sábia, ser constante,
Mas minha sabedoria é intermitente
Como a luz de um vagalume petulante
Entremeada de uma dúvida insistente.

Como posso esclarecer meu semelhante
Se me falta a fé perfeita sem pergunta,
Que faz o santo ou o profeta triunfante,
Precursores do Advento que nos junta?

Estamos todos na Terra em função disso:
A chegada do Reino ou do Juízo
E eu nem acredito em tudo isso...

Eu, ratinha, porei leite em Vosso pires,
Sem que precise por no gato o guizo,  *
Mas, Senhor, dai-me fé em existires!...

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03/12/2016


 Nota
*Sem que precise por no gato o guizo - alusão à fábula A Assembléia dos Ratos, de Esopo.  

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Bem melhor já pensamos (de Alma Welt)

                                            Jose Benlliure Gil - la barca de Caronte 1919               

Bem melhor já pensamos (de Alma Welt)

Bem melhor já pensamos sobre a vida,
E à nossa antiguidade me refiro
Com a nossa existência dividida
Com os deuses de tudo o que admiro.

Nosso espelho eram eles, não no além,
Um espelho de aumento, sublimado
Pois deuses éramos, menores, mas também,
E andávamos de rosto levantado.

A morte, não queríamos, tão sinistra:
Vogar naquele barco ainda pagando
Olhos da cara em ouro, logo à vista...

Mas em vida a existência era mais bela,
Com os heróis entre nós, vivos, lutando,
Ninguém comprado a pão com mortadela...

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01/11/2016

Nota
* Vogar naquele barco ainda pagando
Olhos da cara em ouro, logo à vista. - Alma alude ao Mito do barqueiro Caronte, da Mitologia grega, que levava os mortos para o reino de Hades, no seu barco pelo rio Estige, desde que eles lhe pagassem dois obulos de ouro cada um. Por isso as moedas eram colocados sobre os olhos dos mortos sobre a pira, antes de serem queimados. Alma faz uma metáfora chistosa, com esse verso: "olhos da cara"..."à vista" ...

sábado, 29 de outubro de 2016

O meu amor (de Alma Welt)

O meu amor me pasta como relva
E bebe meus suores de deserto;
Minha carne é seu prado e rala selva
E nossos últimos tigres andam perto.

Às vezes me enternece seu egoismo
E me faz debulhar lágrimas de milho
Como ao reler meu velho catecismo,
Ou então sentir pruridos no gatilho...

Estou a esconder uma arma branca
Debaixo de meu branco travesseiro
Enquanto ele afaga a minha anca...

Penso em fazê-lo assinar um atestado
(mas jamais poria marca no meu gado)
De amor puro, fiel e verdadeiro...

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29/10/2016

O apelo (de Alma Welt)

Meu amor, vamos embora pra bem longe
Não importa se pra beira de um deserto
Onde tu serás meu solitário monge,
E eu, tua santinha, bem mais perto.

Que importa o mundo, ninho de serpentes,
Ou esse saco de gatos conflitantes?
Que podemos contra a caça aos elefantes,
Ou ao Mal e os mortos vivos residentes?

Vem, larga esse teu trabalho insosso
Que só dá dinheiro e nada mais,
E vem comigo beber água de poço!

Assim dizia o coração ao namorado
Enquanto eu quase ria, logo atrás,
E ele abria os braços, desolado...

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29/10/2016

sábado, 8 de outubro de 2016

A mente ociosa (de Alma Welt)

Todo o conhecimento está em nós,
Precisamos aprender a recordá-lo.
Todo rio se encaminha para a foz
E toda ignorância para o ralo...

Assim dizia um guru que imaginei
E com quem andei chupando cana
Do outro lado do vale de Nan Sei
Onde a terra é chata e toda plana...

Há quem de tanta fome entre em coma.
Alguém disse que a beleza desperdiço,
E que devia aproveitá-la e por na zona.

Bah! Minha mente anda ociosa...
O que eu preciso é de catar serviço,
E a Poesia leve um sino de leprosa. *

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08/10/2016

Nota
*...a Poesia leve um sino de leprosa - Na idade Média, os leprosos eram obrigados a carregar uma sineta e ir batendo, para avisar as pessoas para se afastarem quando elas se aproximavam das aldeias. Se não o fizessem era mortas pelos aldeões.

Às margens de La Seine (de Alma Welt)

Cercada de minhas referências
Construí uma muralha de marfim
Contra todas as toscas evidências,
Coisa insustentável, ai de mim!

Minha época era podre, assim pensava
E queria tanto voltar ao dezenove
Onde Fiodor Dostoievski reinava
Junto com Tolstoi, Gogol, Tchecov.

Flaubert, Baudelaire e Verlaine
Este ultimo procurando o seu Rimbaud
Colhiam flores do mal, junto com Taine.

E eu, no chá, degustava a madeleine
De Proust na mesinha de um bistrô
Às margens douradas de la Seine...

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08/10/2016

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Universos (de Alma Welt)

Nosso mundo tem bilhões de universos,
Cada um tem no centro nosso umbigo.
Todos termos nossa prosa e nossos versos,
Isso, sim, é o mistério, meu amigo...

A vida das pessoas é uma saga
Quando vista de perto o suficiente,
Embora raramente ensino traga
Ou que nos ajude a ir pra frente.

Não sei se amo ou não a humanidade
Pois no todo gosto dela bem de longe
E quando estou carente e com saudade.

Mas não me levem nem um pouco a sério:
Jamais seria em mim meu próprio monge,
Meu coração incendiou meu monastério...
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12/08/2016

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Questionando o Bom Deus (de Alma Welt)


Ao meu bom Deus, quando guria perguntei:
Por que a Morte, Senhor, e o sofrimento?
Me refiro ao que por mim mesma não sei,
Mas vejo aí ao meu redor tanto lamento!...

Pensam vocês que Ele me ouviu? Deus nem tchum!
Não me disse A nem b nem Azevedo.
Eu fiquei decepcionada e disse: hummm...
E fiz de satisfeita um arremedo.

Com a mesma pergunta de outro jeito,
De tempos em tempos voltava ao meu bom Deus
Procurando demonstrar maior respeito.

E afinal, conformada: "Ah! Não me ouves!
Se não aceitas protestos como os meus,
É melhor eu voltar às minhas couves"...

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20/07/2016

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Plano para transformar o Mundo (de Alma Welt)

                             O Ministro ( Mefisto) - litografia de Guilherme de Faria

Plano para transformar o Mundo (de Alma Welt)

Bem queria a vida toda transformar
Retirando todo o mal, raiz do mundo
E deixando só o amor, pra começar,
E a morte esquecida lá no fundo...

Que imensa pretensão, bem reconheço,
A de querer melhorar o que Deus fez,
Mesmo sem a rebeldia do começo
Que incluía rancor e insensatez...

Fui visitada por um senhor sinistro
Me propondo sociedade no projeto
Ou então ser uma espécie de ministro.

Então logo percebi a armadilha
De que meu próprio plano era objeto:
A do primeiro anjo e sua quadrilha...

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11/07/2016

domingo, 8 de maio de 2016

Homem rico, sua amante, seu cão (de Alma Welt)

          Homem rico, sua amante seu cão (desenho cubista de Guilherme de Faria, 1975)


Homem rico, sua amante, seu cão (de Alma Welt)

Era uma vez um homem muito rico
Que amava sua amante e seu cachorro,
Como eu, que ao soneto me dedico
Embora ele me venha, assim, de jorro.

Mas onde estava eu? Ah! O ricaço
Que triplo encomendou o seu retrato
A um tal pintor chinfrim meio Picasso,
Já estilhaçado o amor de fato...

E eis que se foram amante e cão
Para os braços de outro magnata
Como os vizinhos sempre são...

Mas ele não ligou, sempre altaneiro:
“Dinheiro (Millor disse esta bravata)
Até o amor compra, e verdadeiro...”

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