sábado, 29 de outubro de 2016

O meu amor (de Alma Welt)

O meu amor me pasta como relva
E bebe meus suores de deserto;
Minha carne é seu prado e rala selva
E nossos últimos tigres andam perto.

Às vezes me enternece seu egoismo
E me faz debulhar lágrimas de milho
Como ao reler meu velho catecismo,
Ou então sentir pruridos no gatilho...

Estou a esconder uma arma branca
Debaixo de meu branco travesseiro
Enquanto ele afaga a minha anca...

Penso em fazê-lo assinar um atestado
(mas jamais poria marca no meu gado)
De amor puro, fiel e verdadeiro...

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29/10/2016

O apelo (de Alma Welt)

Meu amor, vamos embora pra bem longe
Não importa se pra beira de um deserto
Onde tu serás meu solitário monge,
E eu, tua santinha, bem mais perto.

Que importa o mundo, ninho de serpentes,
Ou esse saco de gatos conflitantes?
Que podemos contra a caça aos elefantes,
Ou ao Mal e os mortos vivos residentes?

Vem, larga esse teu trabalho insosso
Que só dá dinheiro e nada mais,
E vem comigo beber água de poço!

Assim dizia o coração ao namorado
Enquanto eu quase ria, logo atrás,
E ele abria os braços, desolado...

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29/10/2016

sábado, 8 de outubro de 2016

A mente ociosa (de Alma Welt)

Todo o conhecimento está em nós,
Precisamos aprender a recordá-lo.
Todo rio se encaminha para a foz
E toda ignorância para o ralo...

Assim dizia um guru que imaginei
E com quem andei chupando cana
Do outro lado do vale de Nan Sei
Onde a terra é chata e toda plana...

Há quem de tanta fome entre em coma.
Alguém disse que a beleza desperdiço,
E que devia aproveitá-la e por na zona.

Bah! Minha mente anda ociosa...
O que eu preciso é de catar serviço,
E a Poesia leve um sino de leprosa. *

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08/10/2016

Nota
*...a Poesia leve um sino de leprosa - Na idade Média, os leprosos eram obrigados a carregar uma sineta e ir batendo, para avisar as pessoas para se afastarem quando elas se aproximavam das aldeias. Se não o fizessem era mortas pelos aldeões.

Às margens de La Seine (de Alma Welt)

Cercada de minhas referências
Construí uma muralha de marfim
Contra todas as toscas evidências,
Coisa insustentável, ai de mim!

Minha época era podre, assim pensava
E queria tanto voltar ao dezenove
Onde Fiodor Dostoievski reinava
Junto com Tolstoi, Gogol, Tchecov.

Flaubert, Baudelaire e Verlaine
Este ultimo procurando o seu Rimbaud
Colhiam flores do mal, junto com Taine.

E eu, no chá, degustava a madeleine
De Proust na mesinha de um bistrô
Às margens douradas de la Seine...

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08/10/2016