sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Fechando as contas (de Alma Welt)




Fechando as contas (de Alma Welt)

Já estou nas extensivas ou no lucro,
Como se diz no vulgo e claramente,
Mas não me refiro ao povo xucro,
Ao balanço da poesia, simplesmente.

Passei a régua, fechei as minhas contas
E só deixei pra lá alguns trocados:
Um ou outro verso meio às tontas
E outros, afinal, de pés quebrados.

E agora contemplo o meu legado
De uma vida dedicada ao bom soneto,
Que teria aos dois Bardos orgulhado.*

E que o corvo cante e o rato ruja
Mais Petrarca, Dante, e num dueto
O Tom e o Vinícius, de lambuja...
 
 
 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Experimentemos (de Alma Welt)

Tentemos não trocar nada em miúdos
Nem fazer as contas no final;
Não ir à guerra santa ou de Canudos
Para poder ir para casa no Natal...

Experimentemos ir além da Taprobana
Mas só se isso for dentro da alma...
Nem sabemos arrumar a nossa cama
Nem consentir sobre isso, dar a palma.

Experimentemos, pois, dormir um pouco
Sobre os nossos louros e conquistas
E às trombetas fazer ouvido mouco.

E como no final dá tudo errado
Encontremos no erro novas pistas,
Pra saber onde estamos... De quê lado?

sábado, 17 de agosto de 2013

A Mariposa (de Alma Welt)


A gente só consegue ser a gente,
Não tem jeito, a vida é uma só.
Ou então será tudo diferente

Só depois da gente virar pó.

Tenho muita pena de morrer
Coisa que parece bem macabra,
Daquelas que eu não podia ver
Sem murmurar abracadabra.

Tudo o que eu sei de pouco serve
E olhem que eu sei de muita coisa
Inútil cada vez que o sangue ferve.

Só espero que no último segundo
Minha alma se torne mariposa,
Saia do casulo e ganhe o mundo...

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Façamos preces (de Alma Welt)

Façamos uma prece apaixonada
Para São Benevento Marzolla
Padroeiro de toda a manada
E inventor do sapato sem sola.

Também para frei Tertuliano
Falso padre jesuíta e tão fiel
Que confessava por escrito todo ano
Seu pecado em rolo grande de papel.

Mas não esqueçamos São Matuque
Que era mágico amador perfeito
Pois de verdade, sem ilusão nem truque.

No final, grandes louvores à Papisa
Joana, que merece o meu respeito
Pois pariu no meio de uma missa...

sábado, 23 de março de 2013

Os deuses (de Alma Welt)

Foi Deus que criou os outros deuses
E quer que pela arte os honremos.
Por isso existe o Amor e seus adeuses
Além da Natureza e alguns demos.

Sabei que os deuses não estão mortos:
Ainda ontem topei com Dioniso
Que para me levar pra outros portos
Só um vinho do Porto foi preciso.

Quanto à Venus, rezo a ela todo dia
Para me manter assim bonita
Ao menos através da minha poesia.

Bah! E Apolo! Que beleza, que galã!
Gravei sua eólia harpa numa fita
Para ouvir todos os dias de manhã...

 

quarta-feira, 13 de março de 2013

Nossa época (de Alma Welt)



Ninguém está seguro, não há Arcas,
Perdemos de repente a sintonia
Com as Graças e às voltas com as Parcas
Caímos numa parca economia.


A qualquer momento vêm as Fúrias
E podemos perder a estribeira
Pela simples rejeição ou por injúrias,
E podemos fazer uma besteira...

Só nos segura uns ecos do passado
Lá atrás onde ficou a consciência
Ao morrer ou sair fora de mercado.

A mesma inconsciência do papado
Que do “estufa” não tem mínima ciência
Ao soltar fumaça preta no telhado...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A Gabola (de Alma Welt)



Senti sempre muitos olhos sobre mim,
E isso, eu sei, é um privilégio
Embora eu seja muito tímida, isso sim,
Apesar de um decantado porte régio


Que dizem que ostento desde a escola
E que faz com que o gaúcho me saúde
Tirando o barbicacho qual cartola
E fazendo com que seu semblante mude.

Mas atribuo tudo isso à minha arte
Que me dá essa aura de princesa
Que não se vê por aí em toda parte...

Mas agora que eu já tanto me gabei,
Vou me deixar levar na correnteza
Pois nem sei se dei à praia ou me afoguei...

domingo, 10 de fevereiro de 2013

O Alvará (de Alma Welt)


Ultimamente me sinto meio idosa,
Embora ainda longe dos quarenta;
É que a estrada é longa e pedregosa
Pra quem de tão sensível nem se agüenta.

“Ora, Alma”- direis- “de que te queixas?”
“É ainda muito jovem teu encarte,
Viveste tua vida como as gueixas,
Só gozando prazer, beleza e arte.”

“Tua canção é que é muito saudosa,
Mas tu pelo teu dengo és suspeita
E isso se percebe em tua prosa...”

Mas, respondo, solidão maior não há
Que a da pobre poetisa já aceita,
A quem até se renovou o alvará...
s

 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Anti lírico (soneto humorístico de Alma Welt)


                 Sonetos de amor, 1894 -Marie Spartali Stillman (Inglaterra, 1844-1927), Delaware Art Museum, EUA

Anti lírico ( de Alma Welt)

"Meu amor"... faz tempo que não digo
Isso assim, no início de um quarteto,
E parecendo até que mal me ligo
Na essência ou primórdios do soneto...

Se penso nos milhares de poemas
Dirigidos ao amor, me dá vertigens;
Muitos deles aplicáveis como enemas
Ou pros suspiros das derradeiras virgens.

Quisera eu escrever versos de amor
Como os de Petrarca para a Laura
Ou mesmo de Allan Poe para Leonor...

Mas meu lirismo é fim de tanque, só vapor;
Também já não possuo aquela aura
E só pega no tranco o meu motor...

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Sobre o quadro:
Marie Euphrosyne Spartali, mais tarde adotando o nome de casada, Stillman (1844 – 1927), foi uma pintora inglesa que adotou o movimento Pré-Rafaelita. Considerada talvez a mulher mais importante desse movimentos Marie Spartali teve uma produção prodigiosa, deixando mais de cem telas produzidas. Dedicou-se a temas típicos do movimento Pré-Rafaelita como cenas de Shakespeare, Petrarca, Dante and Boccaccio, além de paisagens do interior da Itália.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Janeiro (de Alma Welt)

 

Janeiro para muitos é um mês triste
Onde nada acontece ou tudo falha
E rompemos por um simples dedo em riste,
Um chiste ou um “dá cá aquela palha”.


Quanto a mim me sento na varanda
E permaneço quieta o quanto possa
Enquanto a água sobe e o mais desanda,
Para não fazer marola numa poça.

Neste mês se descobriu as leis de Murphy
E não de Newton, Kepler, Lavoisier,
As outras leis em cujas malhas já me vi...

Passo então a Paciência a invocar,
Que da cruel Ananque é o bom bebê,
E na banheira com Arquimedes afundar...