As coisas não ocorridas
atravancam o caminho
Livre-se do ogro
do malogro
Assim dizia um mestre
que inventei
e que se dedicava a fazer nada
com solene inflexão
nos detalhes
Eu ria e ria
com meu mestre
que era a parte enternecida
do meu sonho
detestava não encontrar
o café pronto
e tinha pouca tolerância
com os tolos
Bah! Como dançávamos e ríamos
nos dias de verão no meu jardim
e nas noites também
antes de saber que ele me amava
e nisso consistia o seu saber,
que no mais era um amável
charlatão
Não precisei mandá-lo embora
o meu mestre
Ele se foi em noite conturbada
em que eu batia forte na janela
e não me atreveria a detê-lo
e menos seguí-lo
na tempestade
pois ele mesmo me ensinara
o comodismo
a não intervir na correnteza
o sábio fluxo das coisas
que simplesmente são.
No fundo
não perdi meu tempo
acalentando meu bizarro mestre
(que todos os mestres bem o são)
já que não podemos mesmo ensinar
e menos aprender
pois não sabemos ainda
o que é a Morte
e o misterioso porquê
disto tudo
enquanto a chuva cai
e a relva brota.
Nota
Acabo de encontrar este estranho poema na Arca da Alma, e que me pareceu humorístico. O humor da Alma tinha um toque verdadeiramente bizarro, mas não podemos chamá-lo de "nonsense", pois ela parecia saber bem o que queria dizer. Suas certezas eram muito fortes, apesar de tudo, de toda a perplexidade ante o mistério fundamental da existência. ( Lucia Welt)
Este espaço é reservado à parcela da produção de sonetos da grande poetisa gaúcha ALMA WELT (1972-2007) que contém nítida conotação humorística, embora o humor sutil perpasse de um modo geral toda a sua obra.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Aos forasteiros (de Alma Welt)
Na Santa Gertrudes, velha estância,
Antes "Farroupilha" assim chamada,
Quando o forasteiro sem ganância
Chegar, deslumbrado, pela estrada,
Avistará o vetusto casarão
No outeiro de outrora tantos ais
E que muito resistiu a um canhão
Impiedoso nas mãos imperiais,
Logo um jardim, flores e graças,
Entre as quais me incluo sem pudores,
Biscoito fino inatingível pelas massas.*
Depois, adentrando a grande sala
Vê o retrato de um maestro sem tambores*
E diante do Steinway que agora cala...
08/09/2006
Notas
Ah! Um soneto humorístico, inédito, da Alma, que acabei de descobrir, encantada...
*...biscoito fino inatingível pelas massas- Irônica paráfrase da famosa frase de Oswald de Andrade: "A massa um dia comerá o biscoito fino que eu fabrico".
*Retrato de um maestro sem tambores- Inusitada maneira non-sense de referir-se ao nosso pai, o Vati (Werner Friedrich Welt) músico erudito e grande pianista, falecido.
(Lucia Welt)
Antes "Farroupilha" assim chamada,
Quando o forasteiro sem ganância
Chegar, deslumbrado, pela estrada,
Avistará o vetusto casarão
No outeiro de outrora tantos ais
E que muito resistiu a um canhão
Impiedoso nas mãos imperiais,
Logo um jardim, flores e graças,
Entre as quais me incluo sem pudores,
Biscoito fino inatingível pelas massas.*
Depois, adentrando a grande sala
Vê o retrato de um maestro sem tambores*
E diante do Steinway que agora cala...
08/09/2006
Notas
Ah! Um soneto humorístico, inédito, da Alma, que acabei de descobrir, encantada...
*...biscoito fino inatingível pelas massas- Irônica paráfrase da famosa frase de Oswald de Andrade: "A massa um dia comerá o biscoito fino que eu fabrico".
*Retrato de um maestro sem tambores- Inusitada maneira non-sense de referir-se ao nosso pai, o Vati (Werner Friedrich Welt) músico erudito e grande pianista, falecido.
(Lucia Welt)
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